A Luiza e o BBB

Faz tempo que eu não assisto novela. Ou BBB. Também não assisti ao tal comercial da Luiza. Bom, tudo o que eu escrever aqui, admito e já alerto, será sem conhecimento de causa.

Engraçada essa tal de tecnologia. Agora, através do pay-per-view, podemos assistir (possíveis) estupros ao vivo. Depois, quando o caldo entorna, pode-se alegar que tudo não passou de um mal entendido. Uns dizem que foi, outros que não. Agora a Justiça (ou o Boninho) vai decidir. E então o conceito de estupro caiu na boca do povo; e está sendo banalizado. Tem aqueles que dizem que se uma mulher (em chulo e bom português) fica se esfregando em macho é porque quer dar, e então, o tal macho, apenas cumpriu seu papel. Então é assim, se eu fico de beijos e amassos com alguém tenho, necessariamente, que manter uma relação sexual. Isso me soa animalesco demais. A parte mais grave da história não está na existência ou não de uma vitima de estupro no BBB pois essa está amparada e se quiser pode botar a boca no trombone (por favor, sem trocadilhos). O problema é que, numa sociedade em que casos de abuso sexual são uma constante, a banalização de um crime como esse é muito preocupante.

Agora o caso da Luiza (você sabe quem). Vamos deixar de lado a questão do mercado imobiliário. Para mim as brincadeiras baseadas no texto da propaganda não passaram de…brincadeiras! Exagero o pai da moça declarar que iria encurtar as férias da filha devido à superexposição. Mas pai é pai. O que não me agradou foi a dona Globo (falo da Globo pois foi ela que fez a entrevista com a tal Luiza) meter a colher numa coisa que partiu dos internautas. É igual aquela criança mimada que não sabe brincar e tem sempre que mostrar quem manda. E agora tem o Carlos Nascimento do SBT dizendo que “Luiza já voltou do Canadá. E nós já fomos mais inteligentes.” Eu curti o video, outros não gostaram. Já é característica dessa terra fazer piada de tudo e não vejo mal em uma brincadeira inocente. A vida útil de um meme desses é o que? Dois, três dias? O problema é quando isso se estende além do prazo ou ganha uma importância que não merece, e acho que era sob este aspecto que o Nascimento estava falando. Mas enfim, você vai lá, faz uma piadinha no Facebook, dá uma risada e toca a vida pra frente.

Quem não lembra da Katiusha que beijou o Bono Vox na boca (o Twitter nem era nascido) ou do ambicioso projeto “Save the Galvão Birds”? Brincadeiras coletivas. Mas vocês perceberam que além das risadas, essas brincadeiras conseguem provocar outra coisa? União. Por meios tortos é certo, mas ainda assim é uma maneira de juntar muitas pessoas, em muito pouco tempo, falando de um determinado assunto. A questão é que o brasileiro é o rei da galhofa e é muito mais divertido espalhar um meme sobre a Luiza do que sobre algum assunto mais sério. A Globo entendeu o recado e para não deixar todo o poder nas mãos da plebe, resolveu brincar também.

Ano novo

Banzé era um cachorro como os de antigamente. Dormia no quintal dentro de uma casinha feita com restos de madeira. A casinha não tinha nenhum conforto; no máximo, nas noites de muito frio, forravam as paredes com jornal para protegê-lo do vento. Comia da mesma comida dos donos, a diferença é que ficava com os restos e de vez em quando tinha a sorte de achar um pedaço de carne perdido no meio do arroz e do feijão. Tomava banho uma, no máximo duas vezes por mês, direto no tanque, com direito a água gelada e sabão de coco. Felizmente seu pelo curto o livrava das detestáveis escovadas no lombo. Latia em sinal de alerta quando algum desconhecido se aproximava do portão e corria atrás do carteiro por puro prazer. Era um vira-latas por origem e opção.

O fim do ano finalmente chegara e Banzé sabia disso. Não porque tivesse noção de dias e meses mas porque um movimento anormal tomava conta da casa. Aumentava a quantidade de crianças correndo pelo quintal e da cozinha saíam cheiros que faziam sua barriga roncar. Nessa época a comida que chegava até seu prato tinha uma maior quantidade de carne e gordura.

Quando anoitecia, o entra e sai na casa aumentava tanto que ele nem dava conta de latir para tantos desconhecidos. Os cheiros vindos da cozinha ficavam ainda mais intensos e o faziam salivar. Fortes também eram as risadas das pessoas da casa. Quando já estava bem escuro todos saíam para o quintal e ficavam olhando para o céu como se procurassem alguma estrela perdida. Sem nenhum aviso um barulho muito forte explodia na sua cabeça ao mesmo tempo em que o céu ficava coberto de novas estrelas que acendiam e apagavam toda vez que o barulho voltava. Banzé tremia de medo e, sem entender o que estava acontecendo, ficava correndo entre as pernas das pessoas tentando chamar sua atenção até que uma das meninas da casa percebia seu desespero e o abraçava bem forte dizendo:

- Não precisa ter medo Banzé, é apenas o Ano Novo.

 

Almoço de Natal (ou um conto de Natal em suspenso)

Era o almoço do dia de Natal. Diferente das outras famílias, na nossa não havia ceia; nunca. Eu achava normal. Tão normal quanto espalhar algodão na árvore de Natal fingindo ser neve. Esses almoços aconteciam sempre na casa dos meus avós. Juntavam-se filhos, filhas, genros, cunhadas e crianças, muitas crianças. E as crianças foram o motivo da discórdia naquela tarde quente de Dezembro.

Um dos meus tios era casado com uma mulher bem gordinha, tia Martinha, e os dois tinham quatro filhos. Acontece que tia Martinha, tomada pelo espírito natalino, resolveu se vestir de Papai Noel: roupa vermelha, gorro e barba. Vestiu a fantasia, meteu os presentes dentro do saco e rumou para a casa dos avós.

Quando ela chegou eu demorei a descobrir quem era o Papai Noel disfarçado, mas sabia que aquela figura não era real. Acho que nunca acreditei que um velhinho de trenó fosse o responsável pelos meus presentes. Ele era apenas mais um símbolo, assim como o presépio e a árvore. Mas tia Martinha interpretava bem o papel. Subiu as escadas da casa acenando e começou a distribuir os presentes ao mesmo tempo em que soltava um ho ho ho bem convincente. Acho que porque eu era uma das sobrinhas mais velhas, ganhei um boneco grande, bem bonito, enquanto minhas primas mais novas ganharam cada uma, uma boneca menorzinha. Estávamos nessa atividade de distribuição dos presentes quando uma das crianças menores começou a chorar. Sabe aquele choro sentido, de quem está realmente com medo? Tia Martinha viu aquilo e, meio contrariada ,arrancou a barba branca e o gorro. Minha outra tia, comparando a bonequinha que a filha tinha ganhado, com o meu boneco, fez cara de quem comeu e não gostou. E assim, num clima menos amigável fomos todos almoçar. Após o almoço os adultos ficaram na mesa conversando e a criançada correu para fora intentando pôr à prova a resistência dos brinquedos novos.

Poucos minutos depois ouvi vozes alteradas vindo da cozinha e logo depois o barulho de uma garrafa quebrando. Não consegui entender como a briga começou, o que sei é que ouvi coisas do tipo “…por que o melhor presente é sempre para ela…” e “…cada um tem o que merece…”. Entendi que meu boneco estava metido na confusão e o abracei bem forte com medo que alguém viesse arrancá-lo dos meus braços. A briga ia piorando quando ouvi uma voz firme mandando que todos calassem a boca. Era a minha avó, com seus apenas um metro e cinquenta, enfiando um pouco de razão na cabeça daqueles marmanjos.

Depois dessa intervenção os adultos foram saindo da casa cabisbaixos, juntando suas crianças e se despedindo com um sorriso amarelo. A louça foi lavada e os cacos de vidro foram varridos. Nos dias seguintes um clima de ressaca ficou suspenso no ar. As crianças, coitadinhas, ainda se perguntavam se a culpa era delas e os adultos tinham certeza que nem o espírito natalino liberta das culpas do passado.

Três meses…

Hoje completamos três meses de casados e para comemorar a data resolvi passar a limpo meus votos de casamento escritos de madrugada num quarto de hotel e complementados por um citação de Grande Sertão: Veredas, anotada às pressas num guardanapo de papel.

“Quando você teve a ideia de dizermos nosso votos eu tentei lembrar de algum poema ou trecho de romance que eu pudesse usar nesse momento e ironicamente, uma quase formada em Letras não conseguiu lembrar de um único verso que servisse a esse propósito. Hoje eu acordei de madrugada e fiquei na cama pensando sobre o que escrever para você e comecei a lembrar da nossa história. Você sabe que não sou boa com datas. É você que sempre lembra o aniversário de namoro e sabe em anos, meses e dias se duvidar, a quanto tempo estamos juntos (mas hoje eu fiz as contas e estamos juntos a 5 anos, 6 meses e 16 dias). Mas eu sou boa em lembrar de detalhes, principalmente para usá-lo a meu favor. E hoje de madrugada eu lembrei da primeira vez que nos vimos. Foi no Shopping Estação numa sexta à noite e naquele final de semana você estava indo para Tietê cuidar do seu pai que havia feito uma cirurgia. Lembro da primeira vez que nos beijamos, era meu aniversário, 26 de Fevereiro, um domingo de carnaval. Depois daquele primeiro beijo passamos todo o feriado de carnaval juntos e no terceiro dia você me pediu em namoro. O meu sim eu disse alguns dias depois em 8 de Março, Dia da Mulher, num fim de tarde lá na Torre da Telepar. Nesse mesmo dia trocamos nossa primeiras alianças de compromisso.

E foi assim, de detalhe em detalhe que fomos construindo nossa história……(glup)……de amor.

Felipe, eu agradeço seu carinho e principalmente a paciência que você tem comigo. Admiro seu bom humor, seu otimismo e sua sensibilidade. Relembrando nossa história vi o quanto sou feliz por ter você ao meu lado e quero que isso dure muitos e muitos anos.

Seu coração, eu sei, é repleto de amor e prometo continuar sendo merecedora desse sentimento.

E aqui Guimarães Rosa:

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Curitiba, 24 de Outubro de 2011.

 

(eu só passei a limpo sem fazer nenhuma alteração, por isso a coesão não está perfeita)

 

Coral

Acredito que as coisas mais despretensiosas são aquelas que mais nos surpreenderão.

Em Março deste ano comecei a frequentar os ensaios do coral da empresa em que trabalho. Não sou cantora, não tenho talentos musicais e não acredito que tenha uma voz boa o bastante para cantar. Mas mesmo com todos os contras decidi fazer parte do grupo.

Sete meses depois estava pisando no palco do Teatro Guaíra e logo em seguida viajei para Londrina, Cascavel, Maringá e Ponta Grossa cantando junto com outras 160 vozes acompanhadas pela Orquestra Curitiba Sinfônica.

Eu poderia passar horas descrevendo o que foi e o que significou essa “turnê” mas achei melhor transformar minhas palavras em imagens e música.

E como diriam aqueles cantores brega:

“Coro de Curitiba, essa é para vocês.”