Ano novo

Banzé era um cachorro como os de antigamente. Dormia no quintal dentro de uma casinha feita com restos de madeira. A casinha não tinha nenhum conforto; no máximo, nas noites de muito frio, forravam as paredes com jornal para protegê-lo do vento. Comia da mesma comida dos donos, a diferença é que ficava com os restos e de vez em quando tinha a sorte de achar um pedaço de carne perdido no meio do arroz e do feijão. Tomava banho uma, no máximo duas vezes por mês, direto no tanque, com direito a água gelada e sabão de coco. Felizmente seu pelo curto o livrava das detestáveis escovadas no lombo. Latia em sinal de alerta quando algum desconhecido se aproximava do portão e corria atrás do carteiro por puro prazer. Era um vira-latas por origem e opção.

O fim do ano finalmente chegara e Banzé sabia disso. Não porque tivesse noção de dias e meses mas porque um movimento anormal tomava conta da casa. Aumentava a quantidade de crianças correndo pelo quintal e da cozinha saíam cheiros que faziam sua barriga roncar. Nessa época a comida que chegava até seu prato tinha uma maior quantidade de carne e gordura.

Quando anoitecia, o entra e sai na casa aumentava tanto que ele nem dava conta de latir para tantos desconhecidos. Os cheiros vindos da cozinha ficavam ainda mais intensos e o faziam salivar. Fortes também eram as risadas das pessoas da casa. Quando já estava bem escuro todos saíam para o quintal e ficavam olhando para o céu como se procurassem alguma estrela perdida. Sem nenhum aviso um barulho muito forte explodia na sua cabeça ao mesmo tempo em que o céu ficava coberto de novas estrelas que acendiam e apagavam toda vez que o barulho voltava. Banzé tremia de medo e, sem entender o que estava acontecendo, ficava correndo entre as pernas das pessoas tentando chamar sua atenção até que uma das meninas da casa percebia seu desespero e o abraçava bem forte dizendo:

- Não precisa ter medo Banzé, é apenas o Ano Novo.

 

3 thoughts on “Ano novo

  1. O Bethoven aqui – que de alemão só o nome mesmo – é um vira-lata velho – mesmo quase surdo – faz sentido, não? – tremilica toda por uns bons minutos depois do rojão. Mas eu nunca achei q o medo fosse do ano novo…

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