Botas pra que te quero

Em Curitiba, durante os meses mais frios, acontece um movimento fashion-cultural que acabei de batizar de “a incrível invasão das botas”. A ocorrência de tal movimento está diretamente ligada à queda da temperatura: mais frio, mais botas. Não sei dizer ao certo se é algum tipo de fenômeno natural como a migração dos pássaros ou a pororoca, mas tudo indica que sim pois, ao perceber a chegada das primeiras ondas de frio as botas parecem atingidas por algum instinto primitivo e pulam de armários, sapateiras, vitrines e prateleiras direto para os pés mais ou menos cheirosos das moradoras de Curitiba. Num piscar de olhos as ruas, shoppings, restaurantes e baladas são invadidos por botas dos mais variados tipos e estilos: ankle boot, cano médio, over boot, cowboy, de salto e até de montaria. Esta última inclusive, é uma das espécies mais vistas, e, ao contrário do que o próprio nome diz, não é usada para montaria (pelo menos não o tipo de montaria que envolve cavalo e sela).

Na maioria das vezes as botas nunca vem sozinhas. Um olhar mais atento vai revelar que elas são complementadas por um cabelo comprido loiro (ou pelo menos com luzes) muito bem trabalhado na chapinha e por um óculos escuro (mesmo em dias nublados ou em ambientes internos). As botas mais ousadas também não abrem mão de uma boina ou um chapéu, desde que isso não comprometa a idoneidade física da chapinha.

Mas engana-se quem pensa que as botas apenas protegem e aquecem os pés de quem as usa. Esses seres (ouso chamá-las de seres e não mais de simples calçados) vêm alcançando uma posição de tão grande destaque em nossa cidade que servem muito mais como um termômetro social. Com bota você é alguém. Hoje mesmo fui almoçar em um restaurante e 99% das mulheres usavam longas e engraxadas botas. O 1% restante era eu cometendo a gafe do dia: não usar botas. Quem não se lembra das longas botas da Rainha dos baixinhos, símbolo máximo da realeza, ou ainda das inesquecíveis botas brancas das Paquitas que conseguiam despertar inveja nas meninas e a luxúria nos garotos (e por vezes nos pais dos garotos)?

O seu nível social não é mais medido pelo modelo do seu carro ou pelas jóia que você usa pois é complicado, e perigoso, sair gritando aos quatro ventos quão rico você é. Mas não há limites para as botas. E uma boa bota, na hora e lugar certos, pode despertar a admiração de muitos e a inveja de centenas. Não há limites para elas, afinal, nada mais comum (e glamouroso) do que levar seu cachorrinho ao parque para fazer cocô calçando um bota de montaria da nova coleção.