Onde fica meu lar

– Mas então você é mais curitibana que paulista.

Foi essa conclusão que ouvi ao relatar a um conhecido que moro aqui há pelo menos treze anos. Imediatamente uma voz dentro de mim gritou que não, de maneira alguma eu havia deixado de ser paulista, mesmo estando há tanto tempo longe do local onde nasci. Com certeza alguns perguntariam por que não volto para São Paulo já que aqui não me sinto em casa. Sinto-me em casa morando aqui. Acostumei-me às coisas boas que a cidade oferta e, como todos os moradores, não me conformo e reclamo da coisas ruins com as quais me deparo todos os dias. Acontece que o sentimento que me impulsiona a negar a minha cidadania curitibana está além da ideia de morar – é uma questão de pertencimento. Por mais tempo que passe longe da minha terra, quando para ela retorno é como se retornasse à casa materna – alguns móveis mudaram de lugar, a parede da sala ganhou mais uma mão de tinta e apareceram duas novas trincas na vidraça do quarto, mas, ainda assim, o cheiro de coisa conhecida se faz presente. Andar pelas ruas da minha terra é puxar o passado pelo braço e ir reconhecendo, aqui e ali, casas, prédios e ruas – cenários de antigas histórias em que eu era a protagonista. Talvez daí venha a identificação com esse lugar: sou uma personagem que, ao menos sob meu ponto de vista, tem grande importância na história dessa cidade. Se procurarem bem acharão, na minha certidão de batismo, no meu histórico escolar e até no certificado da primeira comunhão, lado a lado o meu nome o o nome do lugar em que nasci. E se um dia eu for importante a ponto de merecer um novo registro na história, provavelmente escreverão logo após meu nome: natural de São Paulo.

Curitiba, repito, é minha casa. Aqui tenho trabalho, aqui guardo minhas coisas. Curitiba é uma casa quase lar, mas São Paulo jé era meu lar mesmo antes de eu saber.