A hora do almoço

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Estranhei ver aquelas três velhinhas entrando calmamente no restaurante. Era a metade de uma quinta-feira e o público que frequenta o local é composto predominantemente de jovens trabalhadores que enchem apressadamente seus pratos, sentam nas mesas com seus colegas e, entre uma garfada e outra, colocam em dia as fofocas do escritório para depois irem embora com a mesma urgência com que chegaram; sempre pensando na pilha de serviço que repousa sobre a mesa de trabalho.

Mas as três velhinhas não tinham urgência; conforme conversavam avançavam salão adentro com a calma de quem não tem mais horários a cumprir. Ao mesmo tempo em que observava as três senhoras me dei conta de que uma música diferente preenchia o local. Olhei para o canto do piano. Ali estava o pianista de sempre que agora fazia par com uma outra velhinha. Ela, distintamente vestida, olhava para uma partitura aberta à sua frente e segurando o microfone dava vida à canções tão antigas quanto ela.

Fiz meu prato e procurei um lugar para sentar. Na mesa em frente encontrei novamente as três velhinhas e junto delas mais duas senhoras e um senhor, todos da mesma faixa etária. Fiquei um tempo olhando aquele grupo e estava claro que se tratava de algum tipo de reencontro entre amigos de longa data. Tentei adivinhar desde quando eles se conheciam: faculdade, colégio? Ou teriam eles dividido as mesmas brincadeiras de infância num tempo em que liberdade era algo bem mais palpável? Anos e anos de amizade, quarenta, talvez cinquenta anos depois e ali estavam eles, cúmplices como só os bons amigo podem ser.

Olhei novamente para o único homem do grupo. Um pouco alheio ao bate papo feminino (e assim todos são) ele segurava um chapéu mostrando que os anos conseguiram conservar-lhe a elegância. Aquele grupo me fez ver o envelhecimento não como uma sentença de morte, mas como algo a ser festejado em um almoço simples ao meio dia de uma quinta-feira. Torço para que quando eu lá chegar (e oxalá eu chegue) também possa  me reunir com as amigas, falar dos filhos e netos e lembrar de histórias antigas tendo ao meu lado um distinto cavalheiro de chapéu na mão.