Achados e Perdidos

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A Moça encostou no balcão e ficou olhando com interesse as prateleiras abarrotadas de objetos. O Homem surgiu dos fundos da pequena sala e perguntou se podia ajudá-la.

– Eu perdi uma coisa

– Como você pode ver aqui tem um monte de coisa achada. Mas me diga o que você perdeu?

– Não sei bem ao certo. – disse ela enquanto passava os olhos pelas estantes.

– Hum, assim fica um pouco mais difícil. Você saberia me dizer mais ou menos o tamanho do que você perdeu? É grande ou pequeno?

– Não lembro. Eu espero que não seja muito grande pois se não encontrar vai ser difícil substituí-lo.

– Lembra da cor?

– Muito pouco. Acho que era azul, ou talvez verde. Já faz um tempo que eu perdi. Talvez agora esteja cinza.

– Entendo. Só um minuto.

O Homem foi até o fundo da sala e voltou carregando um caderno velho, bem maior que o maior caderno que a Moça já tinha visto. Colocou-o sobre o balcão e foi virando as páginas que a cada movimento mais brusco exalavam um cheiro de guardado.

– Onde você perdeu?

– Desculpe mas não sei ao certo. Sei que não foi do dia para a noite. Acho que foi aos poucos. Eu fui deixando de cuidar dele e depois de algumas semanas ele tinha desaparecido.

– Bom, só nos resta ir por eliminação. – disse isso enquanto passava o dedo enrugado por cima das linhas de uma página. Ali, anotados com uma letra caprichada, estavam os nomes dos objetos encontrados, a descrição, a data em que foram para lá e a data em que haviam sido resgatados pelos seus donos. Essa última anotação era rara e justificava a super lotação na pequena sala. – Você tem filhos?

– Não.

– E a relação com sua mãe?

– Muito boa.

– Então não é caso de perda de Amor de Mãe. Se bem que é raríssimo alguém perder isso. Em todos os anos que trabalho aqui isso aconteceu apenas uma vez. Não foi uma coisa bonita de se ver.

– Mas a pessoa que perdeu conseguiu recuperá-lo?

– Sim, mas demorou anos. – puxou uma caixa empoeirada da prateleira – Aqui, dê uma olhada nessa caixa.

A caixa estava cheia de RGs, alguns muito antigos e outros mais recentes. Eram centenas de rostos desconhecidos.

– Não, nada. Se bem que por um tempo eu pensei ter perdido a minha Identidade. Acho que realmente perdi pois quando olho para trás me pergunto como posso ter feito as coisas que fiz.

– Certo. – virou mais uma página do livro – Consciência?

– Essa eu tenho certeza que não perdi pois está tão pesada que mal consigo dormir à noite. E pode eliminar Juízo também. Está certo que nunca tive muito, mas entendi que não há como viver sem.

– Juízo eu tenho de sobra aqui. Está vendo aquele armário lá no canto? Está cheio de Juízo e somente algumas pessoas vêm procurá-lo. Até parece que perdem de propósito. Tristeza?

– Muita.

– Esperança?

– Foi o que me trouxe até aqui. Passei  por muitos outros lugares iguais a esse e não consegui encontrar nada. Este aqui é minha última tentativa. Se não achar o que perdi  abandonarei a Esperança aqui mesmo.

O homem continuou com a lista: Medo, Angústia, Vergonha, Carinho, Orgulho, Paixão; tudo ela tinha, alguns mais, outros menos, mas estava tudo ali. Ou quase tudo ali.

– É minha cara…as opções estão acabando. Faça um esforço para lembrar quando que você começou a perder.

– Acho que começou quando tomei para mim uma quantidade muito grande de Egoísmo. Não que um pouco de Egoísmo não seja bom; para mim ele neutraliza os efeitos de uma Obediência Cega; mas meu Egoísmo fez aumentar muito minha Auto Importância e dali para frente os sentimentos alheios foram para o fundo da bolsa.

– Isso acontece com uma frequência muito grande. Você nem faz ideia do tamanho do Egoísmo que as pessoas carregam.

– No começo foi bom. Minha Liberdade estava a toda, assim como minha Segurança e minha Certeza. Mas depois de um tempo, aquilo que eu perdi começou a fazer uma falta imensa. Um pouco antes eu quase tinha perdido a minha Honestidade.

– É complicado perder a Honestidade. Não que você não possa recuperá-la, mas junto com ela os demais perdem a Confiança em você e mesmo que você a recupere, ela já não estará intacta. Vamos pensar um pouco mais: você perdeu essa coisa e essa coisa servia como base para todas as demais que você quase perdeu?

– Isso, uma espécie de cola que unia tudo. Sem essa cola o que eu tenho fica folgado, bagunçado. Estou morrendo de medo de nunca mais recuperar pois então minha vida será incompleta.

– Eu só espero que você não esteja atrás de uma Vida Perfeita. Esse é um erro muito comum. Aparecem  várias pessoas aqui achando que perderam a Vida Perfeita e acreditando que aqui irão encontrá-la. Estão todos procurando algo que nunca perderam, simplesmente porque a Vida Perfeita não existe.

– É, eu sei. Eu entendi isso quando perdi o meu…estou quase lembrando o que perdi.

– Se me permite, eu tenho um palpite. – disse isso e foi até o fundo da sala, se ajoelhou em frente a um criado-mudo coberto de pó, tirou do bolso um molho de chaves e depois de três tentativas achou a chave correta e abriu a única gaveta do móvel. Lá de dentro tirou uma caixa de papelão. A caixa era tão pequena que coube na palma da sua mão. Voltou até o balcão e colocou a caixa na frente da moça. – Tome, tente isso.

– Mas é tão pequena! Tem certeza que é minha? Que aí dentro está o que perdi?

– Certeza quase absoluta. E não se engane pela aparência. O tamanho quem determina é você. Não adianta sair gritando para o mundo que você tem isso. Se você se limitar a guardá-lo numa caixinha no fundo de uma gaveta, ele não vai crescer. É preciso carregá-lo sempre com você. Dormir com ele. Até no banho você pode usá-lo pois ele é a prova d’água. Ele inclusive resiste a Guerras. Até da Morte ele ganha, mas só se for bem usado. Quanto mais você usa, maior ele fica, e ao contrário do que muitos pensam, ele não pesa, ele deixa tudo mais leve. Abra a caixinha, ele é seu, e agora que você o reencontrou cuide bem dele. Não o esqueça nunca mais.

A Moça pegou a caixinha e tirou a tampa. Dentro havia um pedaço de papel dobrado. Cuidadosamente ela pegou o papel, desdobrou e leu o que estava escrito.

A-M-O-R

Desta vez ela não ia perdê-lo