À meia noite levarei teu sono

Uma coisa boa é que JH dorme cedo.

Banho, um pouco de desenho, mamadeira e cama, e não eram nem oito e meia.

A parte tragicômica é que ele quase sempre acorda durante a noite.

Meia-noite.

Estava eu desmaiada no sofá quando escuto alguns passos acompanhado de um chorinho de quem teve pesadelo. Uma versão cambaleante do meu filho aparece na sala.

Tento levá-lo de volta ao quarto, me ofereço para deitar junto até o sono voltar.

Ele não aceita a proposta. Quer mamá.

Penso: ainda tá cedo pra mais uma mamadeira.

Volto à mesa de negociações “então faz assim, você fica aqui na cama que eu faço a mamadeira e trago pra você.”

Não. Ele não cede.

Exige me acompanhar até a cozinha. Talvez para supervisionar a feitura  do mamá?

(será que ele desconfia que, devido à inflação, a lata de leite teve um amento de preço considerável  e eu esteja tentando fazer render o produto alterando a proporção medidas de pó por mililitros de água?)

E quer ser levado no colo.

13 kg e 93 cm sendo sustentados pelo meu braço esquerdo já que o direito tinha que dar conta de:

1 – pegar a chaleira

2 – colocar água fervida na mamadeira

3 – colocar a mamadeira no microondas

4 – tirar a mamadeira do microondas

5 – pegar a lata

6 – abrir a lata (já tentaram fazer isso com uma mão só?)

7 – colocar o pó na água

8 – fechar a mamadeira

9 – chacoalhar o conjunto para obter uma mistura homogênea

10 – entregar o produto

Mas no passo 6 algo de muito errado aconteceu. Ao tentar abrir a lata com uma única mão ela escorregou e bateu na mamadeira que foi lançada ao chão, espalhando água por toda a cozinha.

JH, que ainda choramingava no meu colo, pareceu acreditar que a queda havia inutilizado a mamadeira para sempre pois começou a chorar desesperado.

Calmamente recolhi a mamadeira e expliquei que faria outra. Consegui convencê-lo a ficar no chão e reiniciei os trabalhos.

Mamá pronto voltamos para o quarto e torci para que alguma entidade superior secasse o chão da cozinha (tristemente constatei, pela manhã, que não devem existir entidades-superiores-serviços-gerais).

JH mamou e voltou a dormir. Eu, inadvertidamente, deitei ao seu lado e apaguei.

Acordei às quatro da manhã com o alarme do celular tocando perigosamente.

Não tentem entender porque coloco o celular para despertar às 4 da manhã. Simplesmente aceitem assim como aceitei que não conseguiria convencer a humanidade a aumentar as horas do dia para 30.

Conforme planejara na noite anterior, fui para meu quarto separar algumas roupas para doação. De 3 caixas grandes sobrou uma e meia.

Enquanto me despedia de peças de roupa que não uso há anos, mas pelas quais ainda nutro um imenso carinho (céus, como é difícil o  desapego!), vigiava o sono de JH pela câmera da babá eletrônica.

Tudo tranquilo.

Pelo menos até o raiar do dia.

Continua…