Ensaio Sobre a Cegueira



Quantas vezes já desejamos fazer algo, talvez algum sonho secreto, e paramos assustados ao perceber que alguém nos vigiava? Esses olhos pesam sobre nossos ombros, olhos que podem ser de um pai severo tentando manter o filho longe de encrencas, de uma professora exigente tentando manter sua turma sob controle, olhos de um chefe limitado tentando podar um funcionário talentoso que o ameaça. Olhos divinos que nos seguem por toda parte, mesmo naqueles lugares em que olhares mortais não nos alcançam.

Esse olhar nos sufoca, nos reprime, nos faz pensar duas, três vezes antes de darmos vazão aos nossos desejos e, muitas vezes nos tortura. Todos têm, em maior ou menor grau, limitações. O que para alguns pode ser uma coisa totalmente corriqueira, como falar para uma platéia de cem, duzentas pessoas, para outros pode ser a morte. Mas o que determina essa diferença de atitude? Será que os olhares são mais brandos para uns do que para outros, ou será que a diferença está em quem recebe o olhar?

Se são os olhos do mundo que nos reprimem, então por que, mesmo quando ninguém nos vê ainda assim nos recolhemos, nos escondemos? Muitos falarão que é a divindade, que tudo vê, mas isso também vale para aqueles que não se curvam a nenhum ser divino? Será a consciência então, que está mais próxima de nós que nossos pais e que a própria divindade, que nos bloqueia e nos impede de fazer coisas que não são aceitáveis em uma civilização?

Seja o que for que nos vigia; a civilização, a divindade ou a consciência, impedindo-nos de darmos vazão aos nossos desejos; isso também nos protege. Impede que outras pessoas dêem vazão a desejos que são altamente danosos. Abrindo mão de uma parte de nossa liberdade garantimos um pouco de segurança.

Mas e se um dia você acordasse e descobrisse que ninguém mais te vigia, que ninguém mais pode te ver?

Em Ensaio Sobre a Cegueira os olhares que nos protegem e que nos acusam não existem mais. É hora de escolher em que lado ficar: lutar pela sobrevivência guiados pelo único juiz que a falta de visão não conseguiu eliminar – a consciência; ou liberar os instintos animalescos há tempos encarcerados dentro de nós. Talvez para quem assista seja fácil escolher o óbvio. Partindo da certeza de que somos seres civilizados devemos deixar a consciência nos guiar, mas e quando o instinto de sobrevivência fala mais alto e não existem olhares a nos denunciar?

O filme é uma fonte fecunda de sentimentos contrários. Primeiro a sociedade dita “civilizada” elimina de forma desumana e rápida aqueles considerados uma ameaça. Todos os infectados pela cegueira branca são levados para um sanatório desativado. Desta maneira a vida das pessoas “normais” não é afetada, elimina-se o mal pela raiz.

Dentro do sanatório, sem visão, sem regras, sem olhares que reprimam ou protejam, as pessoas devem escolher; ou se unem em bandos – assim como fazem os animais – para se protegerem de outros bandos ou morrem. A perda da visão significa também a perda da civilidade, do pudor e do respeito. O sonho de um dia poder se livrar dos olhares acusadores agora se transforma em pesadelo. Mas a mesma doença que transforma alguns em animais faz outros mais humanos. Ainda que ninguém determine as leis a serem seguidas e não exista punição para a contravenção os que cultivam o amor pela vida têm aí a sua salvação.

O filme começa num ritmo acelerado, com um homem que perde a visão de um instante para o outro enquanto dirige de casa para o trabalho e que mergulha em uma espécie de névoa leitosa assustadora. Uma a uma, cada pessoa com quem ele encontra – sua esposa, seu médico, até mesmo o aparentemente bom samaritano que lhe oferece carona para casa terá o mesmo destino. À medida que a doença se espalha, o pânico e a paranóia contagiam a cidade. As novas vítimas da “cegueira branca” são cercadas e colocadas em quarentena num hospício caindo aos pedaços, onde qualquer semelhança com a vida cotidiana começa a desaparecer. Dentro do hospital isolado, no entanto, há uma testemunha ocular secreta: uma mulher (JULIANNE MOORE, quatro vezes indicada ao Oscar) que não foi contagiada, mas finge estar cega para ficar ao lado de seu amado marido (MARK RUFFALO). Armada com uma coragem cada vez maior, ela será a líder de uma improvisada família de sete pessoas que sai em uma jornada, atravessando o horror e o amor, a depravação e a incerteza, com o objetivo de fugir do hospital e seguir pela cidade devastada, onde eles buscam uma esperança. A jornada da família lança luz tanto sobre a perigosa fragilidade da sociedade como também no exasperador espírito de humanidade. (…)

fonte: http://www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br/main.php

WALL·E

este é para o Wally

Não existem mais habitantes na Terra. Seus moradores não conseguiram conviver com seu próprio lixo, embarcaram em um cruzeiro galáctico de luxo na estação espacial Axiom e agora viajam através do espaço. Entregaram-se a uma vida ociosa e passam dias e noites sentados em suas poltronas à beira da piscina.
Na Terra a paisagem é marrom. Os prédios das grandes cidades ainda resistem mas são facilmente alcançados pelas montanhas de lixo. Não existe mais água, não existem mais plantas. Só a areia cerca tudo.

No meio desta paisagem agreste está WALL·E (Waste Allocation Load Lifters – Earth Class – algo do tipo “Empilhadeira de Lixo de Uso Terrestre”), um robô programado para juntar todo o lixo abandonado pelos humanos. Diariamente ele segue sua diretriz: juntar, compactar e empilhar blocos e mais blocos de lixo.
Nada mais de humano restou, mas só aparentemente. Por uma ironia, as atitudes mais humanas vêm exatamente de uma máquina. WALL·E, após ficar trabalhando sozinho na Terra durante 700 anos, desenvolveu consciência e personalidade. É doce e inocente e sua única companhia naquele lugar é uma barata, simpática até, considerando que estamos falando de uma barata. Ao chegar em sua “casa”, o robô se distrai assistindo filmes antigos, colecionando quinquilharias e ouvindo música. Sua rotina é alterada no dia em que chega à Terra EVE, uma sonda que tem como missão rastrear o local à procura de uma forma vegetal, um sinal que indicaria aos humanos que a Terra se regenerou e já é hora de regressar.
WALL·E apaixona-se por EVE e tenta de tudo para chamar sua atenção. Ele até consegue arrancar uns minutos da atenção da sonda mas, ao encontrar uma planta, EVE “reseta” e fica à espera da nave que virá buscá-la. WALL·E não sabe o que está acontecendo e é a partir daí que vemos quanto humano o robô é. Ele faz de tudo para acordá-la. Desesperado não sabe o que está acontecendo com sua amada mas não a abandona, mesmo embaixo de chuva e raios até o dia em que a nave retorna e WALL·E deixa tudo para trás para acompanhá-la.

WALL·E é a nova animação da Disney/Pixar. Tem cenas engraçadas e situações divertidas mas por trás de toda a comédia existe um pano de fundo que nos leva à reflexão. Sentimentos como solidão, amor e doação estão lá para serem lidos nas entrelinhas. Não é mais um alerta sobre “o que acontecerá se não cuidarmos bem do nosso planeta”. Todos nós já sabemos disso e só não tomamos uma atitude porque talvez nos falte a sensibilidade que sobra em WALL·E. Em 2.700, ano em que se passa a história, o que havia sido previsto já aconteceu. Fomos expulsos da nossa própria casa pelo lixo que nós mesmos produzimos. Incapazes de fugir aos comandos de BEBA, COMA, COMPRE, CONSUMA fizemos de nosso lar um imenso aterro sanitário. Acostumados ao mundo dos descartáveis simplesmente jogamos fora um planeta inteiro.

Ao contrário das últimas animações que assisti, recheadas de personagens cômicos, falas engraçadas e piadas, na maioria das vezes, bem construídas, WALL·E quase não tem diálogos e as vozes dos personagens foram criadas eletronicamente, dispensando o trabalho dos dubladores. A evolução do enredo se dá quase totalmente através das situações vivenciadas pelo protagonista onde gestos, expressões e comportamentos valem mais que palavras. Talvez aí esteja o grande sucesso do robô empilhador de lixo. Através de seu comportamento consegue ser transmitir sentimentos que vão da felicidade à solidão.


Entre as muitas boas cenas de WALL·E a mais bonita é aquela em que, auxiliado por um extintor conta incêndio, ele dança com EVE pelo espaço. Um verdadeiro balé nas estrelas.

Site oficial: http://www.disney.com.br/cinema/walle/

The Number 23

Perturbador. Esta é a primeira palavra que me vem à cabeça ao lembrar do filme. As perguntas que o personagem principal faz são as mesmas que fazemos. Pode um livro comprado ao acaso em uma loja de usados ter como personagem principal a própria pessoa que o lê? As semelhanças existem mesmo ou são apenas fruto de uma mente sugestionável? Walter Sparrow (Jim Carey) ganha de presente de sua esposa um livro intitulado The number 23. De autoria desconhecida, a princípio o livro parece não ser mais do que um romance policial onde o personagem principal e narrador é o detetive Fingerling. À medida que Sparrow avança na leitura começa a perceber que existem muitas semelhanças entre a história contada no livro e sua própria vida. Essas semelhanças parecem ser óbvias somente para ele pois sua esposa Agatha não compartilha da mesma opinião. Para ela estas semelhanças não são mais do que simples coincidências.
O detetive Fingerling é um personagem obscuro e solitário com uma queda por mulheres tão belas quanto perturbadas. A obscuridade aumenta quando o detetive encontra a loira suicida que se diz perseguida pelo número 23. Tal número estaria em todos os lugares. Qualquer simples soma de datas, qualquer medida de tempo ou espaço, qualquer cálculo resultaria no número 23. Após este encontro, Fingerling começa também a ficar obcecado pelo número como se fosse uma espécie de maldição passada de uma pessoa a outra. Para qualquer lugar que olhe, para onde quer que vá o número 23 se faz presente. Sparrow acompanha avidamente a narrativa e, capitulo após capitulo fica mais envolvido com a história tendo a certeza de que o livro foi escrito especialmente para ele. O número maldito então começa a persegui-lo : ele está no número da sua casa, na idade da sua esposa, na data do seu casamento e em qualquer outra situação em que se consiga fazer uma simples conta de adição. Não bastasse a onipresença do número, o livro faz brotar em Sparrow tendências homicidas. Porém, está faltando o capítulo mais importante de todos: o capítulo 23. Sparrow se vê em total desespero quando descobre que o livro está incompleto e decide ir atrás de seu autor. Nessa busca por aquele que parece conhecer seu passado melhor do que ninguém ele se depara com um assassino que jura inocência e um corpo que nunca foi encontrado. Nada parece fazer sentido mas tudo converge para um final que mostra que a realidade e a ficção estão mais próximas do que ele poderia imaginar.

Antes de partir

Saindo do cinema:

– Você vai escrever sobre o filme?

– Hmmmm, acho que não.

Realmente não ia mas aí comecei a pensar no filme, no dia de ontem que não foi tão bom a princípio (segunda-feira, serviço que não parava de chegar, fim de semana não muito produtivo, desânimo, preguiça e uma pitadinha de TPM só para dar um gostinho) e resolvi escrever.

Basicamente The Bucket List (Antes de partir) conta a história de dois homens (interpretados por Jack Nicholson e Morgan Freeman) que se conhecem num quarto de hospital e descobrem que ambos estão com câncer em estágio terminal e só têm mais 6 meses de vida. Decidem então fazer uma lista de tudo que ainda desejam realizar antes de partirem e embarcam juntos numa viagem pelo mundo tentando cumprir todas as tarefas. Carter Chambers (Morgan Freeman) diz: quarenta e cinco anos passam muito rápido. Eu digo que um mês passa muito rápido. São tantas coisas para fazer que muitas vezes fico de saco cheio, como ontem, e tenho vontade de não fazer mais nada.
Mas para não ter que esperar até aparecer um médico me dizendo que tenho só mais 6 meses para então eu resolver me mexer, comecei a um tempo atrás a tentar organizar minha vida colocando tudo o que eu preciso e o que quero fazer em listas. Tudo bem que pode não seguir muito a idéia do Carpem Diem mas é uma maneira prática de me organizar e fazer sobrar mais tempo para aquilo que gosto. Minhas listas eu fiz no Remember the Milk. Fiz várias delas tentando organizar tudo por categorias. Alguns itens têm data marcada (nem sempre cumpridas, devo confessar) e outros não. Geralmente os itens com data marcada são tarefas burocráticas. Os outros podem ser classificados como desejos a serem realizados mas só de estarem lá, devidamente listados, ficam um pouquinho mais reais. A falta de espontaneidade da lista é recompensada quando vejo quantas coisas eu já consegui fazer. Dá uma sensação de tarefa cumprida, de que, afinal de contas, estou usando meu tempo com coisas úteis.

Outro tipo de lista bem legal é a 101 coisas em 1001 dias. O título é auto-explicativo. Você deve tentar cumprir suas 101 tarefas dentro daqueles 1001 dias. As tarefas precisam ser específicas, realistas, mensuráveis e exigir algum esforço da sua parte, mesmo que pequeno. Pode ser desde passear 3 vezes por semana com seu cachorro até escrever uma carta para alguém que você não vê a muito tempo (a volta ao mundo pilotando uma patinete também vale). A idéia de especificar suas tarefas é bem interessante pois lembro que em um dos treinamentos motivacionais que fiz onde trabalho o instrutor pedia a cada um dos participantes para exprimir em uma palavra ou duas o que a pessoa queria para a sua vida. Vieram felicidade, amor, saúde, alegria, paz. Muito bem, disse o instrutor, mas você tem idéia de que tipo de paz deseja? Paz para você, para o mundo? Como você vai conseguir isso e como você vai saber que conseguiu? Tem como medir? Pois é. Não adianta querer abraçar o mundo se você não consegue nem manter seu quarto limpo por um mês.

Eu ainda não tenho a minha lista de 101 coisas mas pretendo fazê-la. Mas o mais importante do que simplesmente ficar caçando 101 tarefas para completar minha lista é fazer com que o cumprimento dessas tarefas realmente faça alguma diferença para mim. Já estou cansada de fazer só por fazer.

Juno

Adolescente grávida: discussões, acusações, culpa, futuro fora de rota. Tem que ser sempre assim? Juno acha que não. Tem consciência de que cometeu um erro infantil para não dizer primário. Tem consciência também de que não tem condições de cuidar do bebê pois como ela mesma diz só tem 16 e ainda está no colegial. Sem dramas psicológicos ela toma a decisão mais acertada: vai dar o bebê para adoção. Mas não é porque ela não ficará com a criança que não se importa com ela. Procura nos classificados os pais perfeitos para seu filho e encontra-os. Egoísmo ou altruísmo? Juno age de forma tão racional para resolver seu problema que chega a desnortear. Para os fãs de grandes produções com efeitos especiais magníficos e caríssimos talvez Juno não passe de um drama/comédia adolescente. Mas olhe novamente, com mais atenção. O filme consegue retratar a vida e todas as complicadas relações que ela trás com simplicidade e genialidade.