Era uma turma do pré e como toda boa turma do pré, era tempo de fazer um presente de dia das mães. Semanas antes a professora havia pedido que cada criança trouxesse um sabonete. Tinha dado até o nome de uma marca específica, segundo ela, mais cheirosa.
- Mããããããããe, compra o sabonete tal?
- Pra quê?
- A professora pediu.
- Mas tá cheio de sabonete aqui em casa.
- Mas a professora pediu esse.
- Ah, essas professoras só inventam.
Sabonete comprado, as próximas semanas foram dedicadas à confecção do presente: algo que envolvia o sabonete, decalques, rendas e fita. Sexta-feira, véspera do dia das mães, lembrança pronta e guardada dentro da lancheira. Agora o problema era como guardar o presente sem que a mãe visse. Durante a volta para casa lembrou que a primeira coisa que a mãe fazia ao chegarem era limpar a lancheira. Como sumir com o presente? O jeito era chegar antes. Quando alcançaram a esquina de casa apertou o passo e saiu correndo, deixando a mãe para trás. Só parou quando chegou no seu quarto. Rapidamente tirou o presente da lancheira e guardou lá no fundo da gaveta, bem protegido por uma camada de meias.
No domingo de manhã, logo ao acordar, tirou o presente da gaveta e correu encontrar a mãe. Deu-lhe um beijo e um abraço e entregou o presente. A mãe fez cara de surpresa e agradeceu o presente dando-lhe repetidos beijos na bochecha. Ficou com aquela sensação boa, de ter pego alguém de surpresa. E a mãe, que já desconfiava de tudo, comprou a brincadeira.
As mães sempre são cúmplices dos filhos, mesmo que eles não saibam disso.

