A Velha, o Dinossauro e o Buquê

– Trinta e dois – falou ela baixinho.

Trinta e dois já. Como esse tempo, ingrato, passa rápido. Às vezes chega a duvidar do que seu RG informa. Sei lá, talvez algum erro de digitação por parte do funcionário mal humorado da Secretaria de Segurança ou, quem sabe, algum engano do cartório que lavrou sua certidão de nascimento afinal, naquela época não existia essa coisa de ISO, selo de qualidade… A verdade é que não se sentia com trinta e dois anos. Lembrava ainda do tempo em que tinha a metade disso e, ao seu ver não tinha mudado tanto assim. A cabeça pelo menos continuava mais ou menos a mesma, acrescidos aí alguns anos de juízo e responsabilidade.

– Desculpe senhora, não entendi.

E agora haviam começado a tratá-la por senhora. Senhora – que chamamento deprimente. Isso é sinal de respeito diriam alguns. Se soubessem o quanto esse “sinal de respeito” a deixava para baixo não continuariam a aplicá-lo. Para ela isso só queria dizer uma coisa: que estava ficando velha. Talvez fosse o momento de começar a gostar de gatos e aprender a tricotar.

– Trinta e dois – disse ela um pouco mais alto, mas não o bastante para que o homem atrás dela na fila escutasse.

E agora essa mania de ter que falar a idade em repartição pública, banco, consultório médico… Se eles já pedem o RG, por que diabos tem que ficar perguntando sua idade. Está tudo lá, é só fazer as contas!

– Ok, Trinta e dois anos. Endereço?

Maldito! Tinha que repetir a idade em voz alta? Tinha? Não basta fazê-la lembrar que já não é uma garotinha. Tem que tripudiar em cima da desgraça alheia? Deve estar rindo por dentro, o desgraçado. Rindo do mesmo jeito que ela riu da cara de um sujeito na praia. Devia ter uns dezesseis anos e estava andando no calçadão com sua mãe quando um rapaz um pouco mais velho veio de encontro a ela, a encarou e soltou um “gatinha”. A cantada foi tão ridícula que ela deu uma gargalhada. Dois passos à frente a mãe olhou para ela e disse que ela estava desdenhando agora que era jovem e atraía todos os olhares mas que um dia ia sentir falta disso.

Por que as mães sempre têm razão?

– Rua das Laranjeiras, 735.

Semana passada saiu com a turma do trabalho para fazer um lanche. Quando estavam indo embora da lanchonete ela ficou para trás e ao passar ao lado de uma mesa foi parada por um homem baixinho e careca de uns cinquenta anos (se bem que naquele momento pareceu a ela que ele tinha bem mais, cento e dez, cento e vinte talvez?) que na maior cara de pau confessou que passara a noite observando-a e queria saber se ela estava acompanhada. Demorou alguns segundos até ela entender o que estava acontecendo e quando ela caiu em si disse que estava atrasada saiu quase correndo sem olhar para trás como se estivesse fugindo de um zumbi-bicentenário-comedor-de-ex-mocinhas-na-casa-dos-trinta.

Nem as risadas dos colegas sobre o ocorrido a livraram da sensação incômoda de ter atraído um pretendente que em casa devia usar chinelo de pano.

– Data da última menstruação?

É, pelo andar da carruagem talvez fosse mesmo a última da sua vida. No sábado fora ao casamento de uma amiga (sortuda, nem trinta anos e conseguiu um marido) disposta a deixar para trás a cantada na lanchonete. Comprou vestido novo, sapato, foi ao salão fazer cabelo a maquiagem, quase estourou o limite do cartão, mas valeu a pena: sentiu-se  renovada.  Durante o jantar conversou e deu risada. Tudo ia tão bem que até se animou a ir disputar o buquê da noiva, porque nunca se sabe…

Lá pelas tantas um senhor alto e grisalho com uma respeitável barriga de cerveja e aparentando ter uns cinquenta e cinco anos (que para ela parecia algo em torno de cento e vinte ou cento e trinta anos) apareceu na sua frente com a seguinte proposta: se eu acertar seu nome você me dá um doce e se eu errar eu lhe dou um doce, que tal?

Céus! Mais um  zumbi-bicentenário-comedor-de-ex-mocinhas-na-casa-dos-trinta a perseguí-la? Quer dizer que nem aquele dinheiro gasto com a super produção foi suficiente para atrair pretendentes que não tenham pertencido ao período Jurássico?

“Valéria” ele disse. É, acertou seu nome. “Mas não vou cobrar a aposta, eu tinha informação privilegiada. O noivo me contou seu nome” disse isso e felizmente voltou para a pista de dança, não sem antes lhe presentear com alguns passos que lembraram muito a dança do passarinho.

É, estava confirmado. O jeito era comprar uma cadeira de balanço e começar a tricotar um pulôver. Decidiu não esperar pelo buquê pois poderia de fato conseguir um pretendente cujo passatempo favorito fosse jogar dominó na pracinha do bairro.

– Vinte de cinco de outubro – declarou ela com voz pesarosa.

– Prontinho. Final do corredor à esquerda. A enfermeira está esperando para colher seu sangue.

Lá foi ela acreditando que o exame de sangue no mínimo apontaria colesterol e trigliceridios altos. Coisas da idade.

O rapaz da recepção, um moreno bem apessoado de uns vinte e seis anos, a acompanhou com os olhos até ela sumir no corredor, virou para a atendente na mesa ao lado e disse:

– Linda essa moça, pena que ela é paciente aqui da clínica, se não a convidaria para tomar um café.

O sabonete

Era uma turma do pré e como toda boa turma do pré, era tempo de fazer um presente de dia das mães. Semanas antes a professora havia pedido que cada criança trouxesse um sabonete. Tinha dado até o nome de uma marca específica, segundo ela, mais cheirosa.

– Mããããããããe, compra o sabonete tal?

– Pra quê?

– A professora pediu.

– Mas tá cheio de sabonete aqui em casa.

– Mas a professora pediu esse.

– Ah, essas professoras só inventam.

Sabonete comprado, as próximas semanas foram dedicadas à confecção do presente: algo que envolvia o sabonete, decalques, rendas e fita. Sexta-feira, véspera do dia das mães, lembrança pronta e guardada dentro da lancheira. Agora o problema era como guardar o presente sem que a mãe visse. Durante a volta para casa lembrou que a primeira coisa que a mãe fazia ao chegarem era limpar a lancheira. Como sumir com o presente? O jeito era chegar antes. Quando alcançaram a esquina de casa apertou o passo e saiu correndo, deixando a mãe para trás. Só parou quando chegou no seu quarto. Rapidamente tirou o presente da lancheira e guardou lá no fundo da gaveta, bem protegido por uma camada de meias.

No domingo de manhã, logo ao acordar, tirou o presente da gaveta e correu encontrar a mãe. Deu-lhe um beijo e um abraço e entregou o presente. A mãe fez cara de surpresa e agradeceu o presente dando-lhe repetidos beijos na bochecha. Ficou com aquela sensação boa, de ter pego alguém de surpresa. E a mãe, que já desconfiava de tudo, comprou a brincadeira.

As mães sempre são cúmplices dos filhos, mesmo que eles não saibam disso.

Almoço de Natal (ou um conto de Natal em suspenso)

Era o almoço do dia de Natal. Diferente das outras famílias, na nossa não havia ceia; nunca. Eu achava normal. Tão normal quanto espalhar algodão na árvore de Natal fingindo ser neve. Esses almoços aconteciam sempre na casa dos meus avós. Juntavam-se filhos, filhas, genros, cunhadas e crianças, muitas crianças. E as crianças foram o motivo da discórdia naquela tarde quente de Dezembro.

Um dos meus tios era casado com uma mulher bem gordinha, tia Martinha, e os dois tinham quatro filhos. Acontece que tia Martinha, tomada pelo espírito natalino, resolveu se vestir de Papai Noel: roupa vermelha, gorro e barba. Vestiu a fantasia, meteu os presentes dentro do saco e rumou para a casa dos avós.

Quando ela chegou eu demorei a descobrir quem era o Papai Noel disfarçado, mas sabia que aquela figura não era real. Acho que nunca acreditei que um velhinho de trenó fosse o responsável pelos meus presentes. Ele era apenas mais um símbolo, assim como o presépio e a árvore. Mas tia Martinha interpretava bem o papel. Subiu as escadas da casa acenando e começou a distribuir os presentes ao mesmo tempo em que soltava um ho ho ho bem convincente. Acho que porque eu era uma das sobrinhas mais velhas, ganhei um boneco grande, bem bonito, enquanto minhas primas mais novas ganharam cada uma, uma boneca menorzinha. Estávamos nessa atividade de distribuição dos presentes quando uma das crianças menores começou a chorar. Sabe aquele choro sentido, de quem está realmente com medo? Tia Martinha viu aquilo e, meio contrariada ,arrancou a barba branca e o gorro. Minha outra tia, comparando a bonequinha que a filha tinha ganhado, com o meu boneco, fez cara de quem comeu e não gostou. E assim, num clima menos amigável fomos todos almoçar. Após o almoço os adultos ficaram na mesa conversando e a criançada correu para fora intentando pôr à prova a resistência dos brinquedos novos.

Poucos minutos depois ouvi vozes alteradas vindo da cozinha e logo depois o barulho de uma garrafa quebrando. Não consegui entender como a briga começou, o que sei é que ouvi coisas do tipo “…por que o melhor presente é sempre para ela…” e “…cada um tem o que merece…”. Entendi que meu boneco estava metido na confusão e o abracei bem forte com medo que alguém viesse arrancá-lo dos meus braços. A briga ia piorando quando ouvi uma voz firme mandando que todos calassem a boca. Era a minha avó, com seus apenas um metro e cinquenta, enfiando um pouco de razão na cabeça daqueles marmanjos.

Depois dessa intervenção os adultos foram saindo da casa cabisbaixos, juntando suas crianças e se despedindo com um sorriso amarelo. A louça foi lavada e os cacos de vidro foram varridos. Nos dias seguintes um clima de ressaca ficou suspenso no ar. As crianças, coitadinhas, ainda se perguntavam se a culpa era delas e os adultos tinham certeza que nem o espírito natalino liberta das culpas do passado.