Bundas evoluídas

Estava assistindo um filme na TV e entre uma pausa e outra para a publicidade, um anúncio aparecia repetidas vezes. Neste anúncio uma mulher com jeito de madame entrava no banheiro, olhava o cesto de lixo e gritava: Alfredoooooooo!!!!! Imediatamente aparecia o Alfredo, vestindo um traje de gala no melhor estilo mordomo-esnobe-de-filme-de-suspense. Para completar o figurino o tal Alfredo trazia nas mãos uma badeja e na bandeja descansava, superior e poderoso, um rolo de papel higiênico. Seguiam-se então repetidos elogios ao papel higiênico e sua magnifica performance.

Pois é, saudade do tempo em que papel higiênico nada mais era que um item básico de higiene. Podem me chamar de saudosista – eu sou – mas no tempo em que o papel higiênico do meu banheiro era cor-de-rosa e não vinha acompanhado por um mordomo, a vida era bem mais simples.

Eu “fumei” vários cigarrinhos de chocolate e nem por isso me transformei em fumante, sabe por quê? Porque na minha casa ninguém era fumante, nem pais, nem avós, simples assim. Além de fumar, eu cantei a plenos pulmões “Atirei o pau no gato-tô, mas o gato-tô não morreu-rreu-rreu…” e por incrível que pareça não me tornei uma serial-killer; tinha mais medo dos gatos que eles de mim. No dia 19 de Abril fazíamos cocares e colares de jornal e comemorávamos o dia do índio pois índio era aquele que morava numa oca, caçava e pescava. Os índios de hoje fecham estradas para cobrar pedágio e se vendem para os gringos.

Aos Domingos sentávamos em frente à única TV da casa e assistíamos os Trapalhões. Quantas vezes ouvi o Mussum (de longe o mais engraçado dos quatro) dizer “Quero morrer pretis a ter que tomar leite!” e simplesmente adorava as cenas em que algo explodia e o Didi, Dedé e Zacarias ficavam com o rosto preto de fumaça e o Mussum ficava com o rosto branco. Meu raciocínio era simples: existiam pessoas negras, como o Mussum, e pessoas brancas, como eu, e a única diferença visível entre elas era a cor, ou será que não é assim?

Mas se antes tínhamos que dividir em cinco pessoas uma única garrafa de Coca Cola de 1 litro, hoje posso levar para casa uma garrafa de 3 litros! É ou não é um sonho? Tomar Coca Cola até sair pelos ouvidos. Coisa boa é que hoje em dia a justiça está ao alcance de todos. Por isso cuidado com as brincadeiras que faz com seus colegas de trabalho, de uma hora para outra poderás ser processado por algum tipo de assédio: condenado por usar sua inteligência e bom humor para fazer aflorar a falta de humor de outrem. E nem tente usar ironia, dificilmente irão entender.

As coisas estão melhores para as mulheres também. Elas estudam mais, conseguem melhores empregos, são independentes, recebem melhores ofertas para posar para a Playboy, leiloam sua virgindade e, ao cultivarem uma bunda do tamanho de dois globos terrestres unidos por fita crepe, recebem carinhosos apelidos de fruta e são tratadas como rainhas.

Mas voltando ao papel higiênico, devo admitir que atualmente nossas bundas são mais bem tratadas que no passado quando tínhamos que nos limpar com um papel cuja qualidade era bem semelhante a de uma *lixa. É, os traseiros evoluíram e mereceram mais atenção de nossa parte. Pena que não posso falar o mesmo dos cérebros.

*O pioneiro na fabricação do papel higiênico cor-de-rosa esclarece aqui que seu produto sempre foi de excelente qualidade. O que aconteceu foi que empresas oportunistas aproveitaram o sucesso do papel Primavera e começaram a oferecer papéis de qualidade inferior maculando a imagem do rolinho rosa.

O caso do mendigo

É, podem reclamar, de novo ele. Mas eu tenho direito afinal não compartilhei a foto e nem comentei. O máximo que fiz foi “curtir” pois achei  interessante um mendigo de olhos azuis. Só no fim do dia fui saber que ele era ex-modelo, viciado em crack e morador das ruas de Curitiba.

Graças ao Facebook a foto foi compartilhada zilhões de vezes, o rapaz ficou famoso e a TV localizou e entrevistou sua família. Teve até um telejornal sensacionalista que tentou entrevistá-lo, mas de noite, numa rua deserta e sob efeito de drogas ele não me pareceu tão bonito quanto na foto.

Hoje pela manhã ouvi no rádio: aconteceu o que a mãe dele mais queria, ele foi internado para tratamento. Uma clínica de São Paulo ofereceu. Coisa boa porque, oras, como pode um moço tão bonito estar jogado na rua? Não é justo, é? Mas então eu pensei:  se não fossem os olhos azuis ele ainda estaria perambulando pelo Largo da Ordem.

No Facebook, sempre que alguém ousa publicar a imagem de uma pessoa doente e debilitada com o intuito de conseguir algum tipo de ajuda, é logo deixada de lado. Na rede social nossas vidas são perfeitas, temos os melhores amigos , as melhores refeições, as melhores férias e nossos olhos sempre são azuis. A foto do belo sem teto é agradável ao olhar e ao mesmo tempo cativante. Que ele realmente se recupere.

Quisera que todos os mendigos  tivessem olhos azuis.