My weakness

O Aquiles tem seu calcanhar, o Superman sua Kriptonita.

Mulherzinha MODE ON

Eu já me declarei para o Marlon Brando aqui, mas esses dias lembrei de outra mulherzisse. Sabe aqueles filmes que você assiste uma vez e depois de novo, de novo e de novo? Um que me faz parar tudo e ficar em frente à TV é Notting Hill. Foi assistindo esse filme que eu contraí uma paixonite pelo Hugh Grant. Não sei especificar o que foi. Talvez os olhos azuis e o sotaque britânico, talvez Londres ou então a ingenuidade do personagem em achar que uma estrela de Hollywood se apaixonaria por ele. Não sou fã de comédias românticas e nem fico esperando por um final feliz mas esse filme me faz ficar agoniada querendo saber o que vai acontecer (mesmo que eu já saiba).

Mas não é só o ator ou a história. É o ator, a história e a música. Esses três elementos se complementam e criam um final quase-perfeito (perfeito seria se eu estivesse no lugar da Julia Roberts). Fosse fora desse contexto, provavelmente eu acharia a música melosa demais, brega demais ou velha demais. Mas para mim ela é perfeita.

O audiovisual opera milagres.

Mulherzinha MODE OFF

It all ends

Faz mais de dez anos mas ainda lembro a primeira vez que segurei Harry Potter e a Pedra Filosofal na mão. Olhei a capa, verifiquei o conteúdo da  contra-capa, li a primeira página e alguma coisa naquela prosa clara chamou minha atenção. Eu podia não ter mais onze anos mas a história me deliciava como se tivesse. Realmente, sair do meu mundo trouxa e embarcar com Harry no Expresso de Hogwarts com direção a Hogsmeade era tudo o que meu lado criança desejava. E por mais de uma década, primeiro com os livros e depois com os filmes, senti a magia mais perto de mim.

A série acabou, Harry Potter cresceu e agora nos sentimos um pouco órfãos. Mas ainda assim fico feliz por ter tido a chance de acompanhar a saga. Um dia vou tirar da estante meus livros cobertos de poeira, vou sentar no sofá e deixar a magia me envolver…uma vez mais.

“Naturalmente está acontecendo dentro da sua cabeça, mas por que é que isto deveria significar que não é verdadeiro?”

Capitão Nascimento, herói grego?


Uma coisa que venho notando é que, à medida que adquiro um conhecimento teórico sobre determinado assunto, mais difícil fica ocupar o papel de simples espectadora. Explico. Embora curse Letras e não Cinema, este é um assunto bastante discutido nas aulas de literatura uma vez que muitos filmes são adaptações de livros ou peças de teatro. Assim, comparando uma arte com a outra, é difícil não perceber algumas estratégias escondidas por trás das tramas.
Há duas semanas fui assistir ao filme Tropa de Elite 2. O que chamou minha atenção logo no início foi a cena quando, surpreendido em uma emboscada, ouvimos a voz do agora Comandante Nascimento dizendo (não recordo as palavras exatas) que na hora da morte vemos toda a nossa vida passar diante dos nossos olhos. Isso é clichê, obviamente, mas mesmo nisso o personagem adianta-se pois admite justamente que sim, isso é clichê.  Enquanto os créditos iniciais vão aparecendo na tela, são mostradas cenas do primeiro filme. Essas cenas servem como retomada (e mesmo promoção) do primeiro filme e também representam a vida que é revivida na hora da morte.

O filme prossegue, dessa vez com um pouco menos de violência gratuita e com uma trama mais elaborada. Nascimento segue tomando decisões e praticando ações que acredita estarem corretas. É essa sua ruína.
É claro que enquanto estava no cinema, acompanhava a ação como uma espectadora comum, com as mesmas reações das outras pessoas. Somente durante a semana um detalhe chamou a minha atenção.
Já no final do filme o Comandante Nascimento, derrotado e destituído de seu lugar, é chamado a depor em uma CPI e então, para alívio da audiência, finalmente abre o jogo e libera todos seus demônios. É a sua catarse.

Catarse, coisa difícil de entender e de explicar. Uma pesquisa rápida no Google trás que Catarse (do grego “kátharsis”) é uma palavra utilizada em diversos contextos, como a tragédia, a medicina ou  a psicanálise, que significa “purificação”, “evacuação” ou “purgação”. Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama.  Segundo o filósofo, para suscitar a catarse era preciso que o herói passasse da dita para a desdita, ou seja, da graça  para a desgraça. E mais ainda: não pode ser por acaso, e sim por uma desmedida, ou seja, por uma ação ou escolha mal  feita do herói.

Um exemplo clássico de catarse é a história de Édipo-Rei que, acreditando estar tomando a ação correta, tenta fugir de uma maldição (Édipo mataria o próprio pai e casaria com a mãe) e acaba indo justamente de encontro a ela. Ao descobrir a verdade Édipo passa por um sofrimento supremo e depois alcança a libertação.
Em uma cena dramática, a catarse que acomete os personagens é “transferida” para a audiência que, de alguma forma, passa tanto pelo sofrimento quanto pela libertação. É essa a função do drama. E é isso o que acontece no filme.
Influenciada pelo primeiro Tropa de Elite, a audiência já sabe do lado de quem vai ficar e, ainda que esse lado seja tão violento quanto o dos bandidos, tudo pode ser justificado pois afinal de contas é o “bem” combatendo o “mal”.
Nascimento acredita que finalmente, ocupando um alto cargo no serviço de inteligência, terá o poder necessário para varrer da cidade do Rio de Janeiro tudo aquilo que a deteriora. Ele realmente crê estar no caminho certo (aqui está a “ação ou escolha mal feita do herói”). E estaria, não fosse um inimigo maior. Um inimigo que nos chama pelo nome, entra na nossa casa, aperta nossa mão e nos rouba sem pegar em armas. Os traficantes, sabemos que não estão a nosso favor, mas e os políticos? Publicamente tudo o que fazem é para o nosso bem. Para o nosso bem?
Com a “ajuda” dos políticos, Nascimento cai em desgraça. O público cai com ele. Durante toda a trama vemos o lado de lá em vantagem e sofremos sentados, sem ação. Para nosso alívio, já na CPI, Nascimento pede a palavra e, diante de uma platéia formada por políticos, despeja tudo o que estava enroscado na sua (nossa) garganta.
É a nossa purificação. Nossa catarse.

Na Natureza Selvagem

Busca pela essência da vida. Este é o tema principal do filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild), lançado em 2007 e dirigido por Sean Penn. O filme reproduz a história real de Chistopher McCandless (Emile Hirsch), jovem recém-formado que, contrariando a vontade dos pais, abre mão do curso de direito em Harvard, coloca uma mochila nas costas e, durante dois anos, viaja pelos estados da Dakota do Sul, Arizona e Califórnia.

Durante sua jornada Christopher muda seu nome para Alexander Supertramp e tem a oportunidade de conviver com pessoas diferentes daquelas a que estava habituado: um casal hippie, um fazendeiro e um senhor que lutou na guerra. De algum modo Christopher consegue provocar uma mudança na vida dessas pessoas e, em contrapartida, o relacionamento com essas personagens faz com que aumente nele o desejo de alcançar a sua essência fazendo com que ele, após dois anos vivendo como andarilho, parta para seu destino final: o Alasca selvagem. Neste distante estado americano Christopher se vê cercado de nada além de neve e tem como único companheiro seu diário de viagem, no qual registra seus fracassos, reflexões, descobertas e conquistas. Aos poucos ele vai eliminando qualquer resquício da sociedade à qual pertencia, e que não aceitava, e tenta integrar-se à natureza.

A busca pela essência, ou pelo sentido da vida, é um tema bastante explorado pela arte seja através da literatura, da música ou de filmes e, principalmente no cinema, o risco de um filme transformar-se em uma obra puramente motivacional é muito grande. No entanto, o diretor conseguiu tornar a história de um homem que seria considerado simplesmente um maluco em algo altamente reflexivo. O ser humano inúmeras vezes sente-se insatisfeito com a sociedade da qual faz parte, mas ainda assim precisa dela para sobreviver. Cria-se assim uma relação de negação e submissão. Uma vez que o poder da sociedade sobre o indivíduo é quase sempre maior que o poder do homem sobre ele mesmo, torna-se menos doloroso submeter-se à sociedade do que confrontá-la ou abandoná-la. Na Natureza Selvagem consegue despertar na mente do telespectador mais atento questionamentos e reflexões acerca do papel da sociedade e dos indivíduos dentro dela, que permanecem ativos por alguns dias após o contato com a história de Christopher. Não é um filme que se resolve com a exibição dos créditos. Pelo contrário, ele continua sendo reprisado dentro da mente de quem o assiste e esse é seu grande mérito.

Ensaio Sobre a Cegueira



Quantas vezes já desejamos fazer algo, talvez algum sonho secreto, e paramos assustados ao perceber que alguém nos vigiava? Esses olhos pesam sobre nossos ombros, olhos que podem ser de um pai severo tentando manter o filho longe de encrencas, de uma professora exigente tentando manter sua turma sob controle, olhos de um chefe limitado tentando podar um funcionário talentoso que o ameaça. Olhos divinos que nos seguem por toda parte, mesmo naqueles lugares em que olhares mortais não nos alcançam.

Esse olhar nos sufoca, nos reprime, nos faz pensar duas, três vezes antes de darmos vazão aos nossos desejos e, muitas vezes nos tortura. Todos têm, em maior ou menor grau, limitações. O que para alguns pode ser uma coisa totalmente corriqueira, como falar para uma platéia de cem, duzentas pessoas, para outros pode ser a morte. Mas o que determina essa diferença de atitude? Será que os olhares são mais brandos para uns do que para outros, ou será que a diferença está em quem recebe o olhar?

Se são os olhos do mundo que nos reprimem, então por que, mesmo quando ninguém nos vê ainda assim nos recolhemos, nos escondemos? Muitos falarão que é a divindade, que tudo vê, mas isso também vale para aqueles que não se curvam a nenhum ser divino? Será a consciência então, que está mais próxima de nós que nossos pais e que a própria divindade, que nos bloqueia e nos impede de fazer coisas que não são aceitáveis em uma civilização?

Seja o que for que nos vigia; a civilização, a divindade ou a consciência, impedindo-nos de darmos vazão aos nossos desejos; isso também nos protege. Impede que outras pessoas dêem vazão a desejos que são altamente danosos. Abrindo mão de uma parte de nossa liberdade garantimos um pouco de segurança.

Mas e se um dia você acordasse e descobrisse que ninguém mais te vigia, que ninguém mais pode te ver?

Em Ensaio Sobre a Cegueira os olhares que nos protegem e que nos acusam não existem mais. É hora de escolher em que lado ficar: lutar pela sobrevivência guiados pelo único juiz que a falta de visão não conseguiu eliminar – a consciência; ou liberar os instintos animalescos há tempos encarcerados dentro de nós. Talvez para quem assista seja fácil escolher o óbvio. Partindo da certeza de que somos seres civilizados devemos deixar a consciência nos guiar, mas e quando o instinto de sobrevivência fala mais alto e não existem olhares a nos denunciar?

O filme é uma fonte fecunda de sentimentos contrários. Primeiro a sociedade dita “civilizada” elimina de forma desumana e rápida aqueles considerados uma ameaça. Todos os infectados pela cegueira branca são levados para um sanatório desativado. Desta maneira a vida das pessoas “normais” não é afetada, elimina-se o mal pela raiz.

Dentro do sanatório, sem visão, sem regras, sem olhares que reprimam ou protejam, as pessoas devem escolher; ou se unem em bandos – assim como fazem os animais – para se protegerem de outros bandos ou morrem. A perda da visão significa também a perda da civilidade, do pudor e do respeito. O sonho de um dia poder se livrar dos olhares acusadores agora se transforma em pesadelo. Mas a mesma doença que transforma alguns em animais faz outros mais humanos. Ainda que ninguém determine as leis a serem seguidas e não exista punição para a contravenção os que cultivam o amor pela vida têm aí a sua salvação.

O filme começa num ritmo acelerado, com um homem que perde a visão de um instante para o outro enquanto dirige de casa para o trabalho e que mergulha em uma espécie de névoa leitosa assustadora. Uma a uma, cada pessoa com quem ele encontra – sua esposa, seu médico, até mesmo o aparentemente bom samaritano que lhe oferece carona para casa terá o mesmo destino. À medida que a doença se espalha, o pânico e a paranóia contagiam a cidade. As novas vítimas da “cegueira branca” são cercadas e colocadas em quarentena num hospício caindo aos pedaços, onde qualquer semelhança com a vida cotidiana começa a desaparecer. Dentro do hospital isolado, no entanto, há uma testemunha ocular secreta: uma mulher (JULIANNE MOORE, quatro vezes indicada ao Oscar) que não foi contagiada, mas finge estar cega para ficar ao lado de seu amado marido (MARK RUFFALO). Armada com uma coragem cada vez maior, ela será a líder de uma improvisada família de sete pessoas que sai em uma jornada, atravessando o horror e o amor, a depravação e a incerteza, com o objetivo de fugir do hospital e seguir pela cidade devastada, onde eles buscam uma esperança. A jornada da família lança luz tanto sobre a perigosa fragilidade da sociedade como também no exasperador espírito de humanidade. (…)

fonte: http://www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br/main.php

WALL·E

este é para o Wally

Não existem mais habitantes na Terra. Seus moradores não conseguiram conviver com seu próprio lixo, embarcaram em um cruzeiro galáctico de luxo na estação espacial Axiom e agora viajam através do espaço. Entregaram-se a uma vida ociosa e passam dias e noites sentados em suas poltronas à beira da piscina.
Na Terra a paisagem é marrom. Os prédios das grandes cidades ainda resistem mas são facilmente alcançados pelas montanhas de lixo. Não existe mais água, não existem mais plantas. Só a areia cerca tudo.

No meio desta paisagem agreste está WALL·E (Waste Allocation Load Lifters – Earth Class – algo do tipo “Empilhadeira de Lixo de Uso Terrestre”), um robô programado para juntar todo o lixo abandonado pelos humanos. Diariamente ele segue sua diretriz: juntar, compactar e empilhar blocos e mais blocos de lixo.
Nada mais de humano restou, mas só aparentemente. Por uma ironia, as atitudes mais humanas vêm exatamente de uma máquina. WALL·E, após ficar trabalhando sozinho na Terra durante 700 anos, desenvolveu consciência e personalidade. É doce e inocente e sua única companhia naquele lugar é uma barata, simpática até, considerando que estamos falando de uma barata. Ao chegar em sua “casa”, o robô se distrai assistindo filmes antigos, colecionando quinquilharias e ouvindo música. Sua rotina é alterada no dia em que chega à Terra EVE, uma sonda que tem como missão rastrear o local à procura de uma forma vegetal, um sinal que indicaria aos humanos que a Terra se regenerou e já é hora de regressar.
WALL·E apaixona-se por EVE e tenta de tudo para chamar sua atenção. Ele até consegue arrancar uns minutos da atenção da sonda mas, ao encontrar uma planta, EVE “reseta” e fica à espera da nave que virá buscá-la. WALL·E não sabe o que está acontecendo e é a partir daí que vemos quanto humano o robô é. Ele faz de tudo para acordá-la. Desesperado não sabe o que está acontecendo com sua amada mas não a abandona, mesmo embaixo de chuva e raios até o dia em que a nave retorna e WALL·E deixa tudo para trás para acompanhá-la.

WALL·E é a nova animação da Disney/Pixar. Tem cenas engraçadas e situações divertidas mas por trás de toda a comédia existe um pano de fundo que nos leva à reflexão. Sentimentos como solidão, amor e doação estão lá para serem lidos nas entrelinhas. Não é mais um alerta sobre “o que acontecerá se não cuidarmos bem do nosso planeta”. Todos nós já sabemos disso e só não tomamos uma atitude porque talvez nos falte a sensibilidade que sobra em WALL·E. Em 2.700, ano em que se passa a história, o que havia sido previsto já aconteceu. Fomos expulsos da nossa própria casa pelo lixo que nós mesmos produzimos. Incapazes de fugir aos comandos de BEBA, COMA, COMPRE, CONSUMA fizemos de nosso lar um imenso aterro sanitário. Acostumados ao mundo dos descartáveis simplesmente jogamos fora um planeta inteiro.

Ao contrário das últimas animações que assisti, recheadas de personagens cômicos, falas engraçadas e piadas, na maioria das vezes, bem construídas, WALL·E quase não tem diálogos e as vozes dos personagens foram criadas eletronicamente, dispensando o trabalho dos dubladores. A evolução do enredo se dá quase totalmente através das situações vivenciadas pelo protagonista onde gestos, expressões e comportamentos valem mais que palavras. Talvez aí esteja o grande sucesso do robô empilhador de lixo. Através de seu comportamento consegue ser transmitir sentimentos que vão da felicidade à solidão.


Entre as muitas boas cenas de WALL·E a mais bonita é aquela em que, auxiliado por um extintor conta incêndio, ele dança com EVE pelo espaço. Um verdadeiro balé nas estrelas.

Site oficial: http://www.disney.com.br/cinema/walle/