Almoço de Natal (ou um conto de Natal em suspenso)

Era o almoço do dia de Natal. Diferente das outras famílias, na nossa não havia ceia; nunca. Eu achava normal. Tão normal quanto espalhar algodão na árvore de Natal fingindo ser neve. Esses almoços aconteciam sempre na casa dos meus avós. Juntavam-se filhos, filhas, genros, cunhadas e crianças, muitas crianças. E as crianças foram o motivo da discórdia naquela tarde quente de Dezembro.

Um dos meus tios era casado com uma mulher bem gordinha, tia Martinha, e os dois tinham quatro filhos. Acontece que tia Martinha, tomada pelo espírito natalino, resolveu se vestir de Papai Noel: roupa vermelha, gorro e barba. Vestiu a fantasia, meteu os presentes dentro do saco e rumou para a casa dos avós.

Quando ela chegou eu demorei a descobrir quem era o Papai Noel disfarçado, mas sabia que aquela figura não era real. Acho que nunca acreditei que um velhinho de trenó fosse o responsável pelos meus presentes. Ele era apenas mais um símbolo, assim como o presépio e a árvore. Mas tia Martinha interpretava bem o papel. Subiu as escadas da casa acenando e começou a distribuir os presentes ao mesmo tempo em que soltava um ho ho ho bem convincente. Acho que porque eu era uma das sobrinhas mais velhas, ganhei um boneco grande, bem bonito, enquanto minhas primas mais novas ganharam cada uma, uma boneca menorzinha. Estávamos nessa atividade de distribuição dos presentes quando uma das crianças menores começou a chorar. Sabe aquele choro sentido, de quem está realmente com medo? Tia Martinha viu aquilo e, meio contrariada ,arrancou a barba branca e o gorro. Minha outra tia, comparando a bonequinha que a filha tinha ganhado, com o meu boneco, fez cara de quem comeu e não gostou. E assim, num clima menos amigável fomos todos almoçar. Após o almoço os adultos ficaram na mesa conversando e a criançada correu para fora intentando pôr à prova a resistência dos brinquedos novos.

Poucos minutos depois ouvi vozes alteradas vindo da cozinha e logo depois o barulho de uma garrafa quebrando. Não consegui entender como a briga começou, o que sei é que ouvi coisas do tipo “…por que o melhor presente é sempre para ela…” e “…cada um tem o que merece…”. Entendi que meu boneco estava metido na confusão e o abracei bem forte com medo que alguém viesse arrancá-lo dos meus braços. A briga ia piorando quando ouvi uma voz firme mandando que todos calassem a boca. Era a minha avó, com seus apenas um metro e cinquenta, enfiando um pouco de razão na cabeça daqueles marmanjos.

Depois dessa intervenção os adultos foram saindo da casa cabisbaixos, juntando suas crianças e se despedindo com um sorriso amarelo. A louça foi lavada e os cacos de vidro foram varridos. Nos dias seguintes um clima de ressaca ficou suspenso no ar. As crianças, coitadinhas, ainda se perguntavam se a culpa era delas e os adultos tinham certeza que nem o espírito natalino liberta das culpas do passado.

Ora, balas!

imagem: http://www.papeldeparede.etc.br/fotos/papel-de-parede_bala-de-coracao/

Como a mocinha estava para casar, as amigas fizeram uma vaquinha e lhe compraram um baleiro. Era um baleiro de vidro, réplica em tamanho reduzido daqueles que costumávamos encontrar nas vendas e bodegas de antigamente e que faziam a alegria da meninada. A mocinha aprovou a escolha e após o casamento o baleiro passou a ocupar o centro da mesa de jantar. Muito cuidadosa, a nova dona de casa mantinha o estoque de balas sempre em dia porque afinal, qual a serventia de um baleiro sem balas? Todas as noites após o jantar a mocinha catava algumas balas para chupar enquanto assistia TV. Acontece que o marido deu de implicar com o consumo periódico de guloseimas e ficava controlando quantas balas eram consumidas por dia. Um mês após o casamento o baleiro estava quase vazio. Vendo a esposa catar as duas últimas balas o marido fez uma cara enfezada e soltou:

– A senhora está proibida de comprar mais balas. Anda consumindo muito açúcar.

A esposa deu de ombros e foi dormir. No outro dia acordou antes que o marido e ao chegar na sala deu de cara com o baleiro vazio. Lembrou da ordem dada na noite anterior e sentiu o rosto ferver: quem era ele para decidir o que ela devia ou não comer. Se hoje estava proibindo-a de comprar balas, amanhã vetaria o uso de saia e não deixaria que ela saísse sozinha. Decidiu cortar o mal pela raiz. Rabiscou um bilhete e deixou debaixo do baleiro:

“Oi. Eu vou comprar balas para meu baleiro sim. Beijo.”

À noite, quando a mocinha chegou do trabalho encontrou em cima da mesa um pacote de balas com um bilhete do marido:

” Tá bom amor. Só precisa fazer durar mais tempo pra não estragar os dentes.”

O casamento estava salvo.

(Qualquer semelhança com a realidade pode ser mera coincidência. Será?)

O caso do guarda-chuva

imagem: http://heliosenaentrepalavras.blogspot.com/2011/04/guarda-chuva-ii_05.html

Fui almoçar em um restaurante novo. Fiz meu prato e subi para o mezanino. Escolhi uma mesa afastada do movimento. Esquecido num canto havia um guarda-chuva, desses pretos, tamanho família, que em dias de chuva fazem a alegria dos vendedores ambulantes. Olhei para os lados, nada. Ninguém com cara de que havia perdido alguma coisa. Almocei e o guarda-chuva continuou lá, imóvel. Primeiro pensei em deixá-lo para trás; depois considerei entregá-lo ao dono do restaurante na esperança que o proprietário fosse resgatá-lo. Por fim decidi levá-lo comigo. Não era o mais correto a fazer, e no passado já fizera questão de devolver outros guardas-chuva perdidos para os legítimos donos; ou pelo menos encaminhá-los a algum setor de achados e perdidos. Mas não desta vez. Mesmo correndo o risco de ser desmascarada decidi me apossar daquele objeto. Terminei minha refeição, levantei-me e peguei o guarda-chuva com uma naturalidade que só o verdadeiro dono poderia demonstrar. Desci as escadas e fui até o caixa. Se no meio do caminho alguém me interpelasse eu diria que estava justamente levando o objeto perdido para ser deixado à disposição do dono. Mas ninguém apareceu. Paguei a conta e retribuí o sorriso da moça do caixa. Quando pus os pés na rua fui tomada por um certo temor: e se o verdadeiro dono me encontrasse ali na porta, com a prova do crime nas mãos? E se diante da minha recusa em confessar o crime ele exigisse verificar os videos do restaurante? Meu rosto apareceria na tela da tv e nas minhas mãos estaria a prova do meu delito. Afastei esses pensamentos como quem afasta um pernilongo irritante e continuei caminhando. Ninguém me notou. Cheguei ao trabalho sã e salva.

O guarda-chuva está aqui, ao lado da minha mesa, aguardando apenas a próxima chuva para entrar em ação. Já são cinco e vinte e cinco da tarde. Daqui a cinco minutos eu encerro meu expediente. Ninguém veio reclamar um guarda-chuva perdido e não recebi nenhum e-mail ameaçador. Parece que consegui me safar, mas como o seguro morreu de velho, vou evitar aquele restaurante nos próximos dias; principalmente nos dias de chuva.