Momento de fúria – o vendedor de perfume

Tirei daqui: http://asuse3.blogspot.com/2007_12_06_archive.html

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Já me disseram que no futuro serei uma daquelas velhas rabugentas que vivem cercadas de gatos e reclamam até da luz do Sol. Exagero. Sou apenas um pouco mal humorada e, como procuro não incomodar ninguém, peço que também não me incomodem.

Aconteceu num fim de tarde durante meu trajeto trabalho-faculdade. Ia caminhando apressada, mochila nas costas e sacolinha do Boticário na mão (esse é um detalhe importante para o resto da história). Dentro da tal sacolinha nada de perfume, mas sim um potinho com um lanche e uma banana – meu jantar.

Já perto da faculdade havia um grupo de vendedores estrategicamente posicionados no meio da calçada. Eram todos rapazes, usavam roupas sociais e seguravam caixas de perfume. Os tais rapazes abordavam as pessoas que passavam oferecendo um brinde em troca de sei lá o quê. Resumindo, estavam promovendo a tal marca de perfumes. Nada contra os tais rapazes afinal, todos precisam trabalhar, mas as empresas que querem vender seus produtos poderiam procurar formas mais inteligentes de divulgação. É visível que as pessoas estão de saco cheio de serem abordadas na rua por pedintes, vendedores, panfleteiros, pesquisadores e até ciganas (acredite se quiser). Sei que muitas vezes passo por mal educada por não dar atenção, mas se fosse parar para ouvir o que cada um tem a dizer, nunca chegaria ao meu destino.

Neste dia eu estava bem, não estava nervosa e não apresentava nenhum sintoma que indicasse a aproximação de um momento de fúria. Vi o grupo de rapazes e fui passando por eles sem olhar para os lados. Estava quase em segurança quando o último deles disse:

– Oi moça, quer conhecer esse perfume?

 Como sempre faço continuei a andar. O tal rapaz viu que eu não ia parar e soltou:

 – Hummm, perfume do Boticário hein. Por isso não quer parar.

Queridos pedintes, vendedores, panfleteiros, pesquisadores e até ciganas; vocês podem até me abordar no meio da rua, pois, embora eu não goste, não terei uma reação mal educada. Mas por favor, não façam gracejos nas minhas costas.

Ao ouvir aquelas palavras algo se manifestou dentro de mim – talvez um ódio acumulado por tantas e tantas abordagens inconvenientes e deselegantes. Parei imediatamente e olhei para trás. O vendedor, se achando o máximo, foi se aproximando, dando uma de gostoso (provavelmente foi instruído a agir assim) e esticando o braço para repousá-lo sobre meu ombro. Ele agia tal qual homens em baladas que acreditam estarem arrasando. Se eu já não aprecio esses tipos em baladas, imaginem no meio da rua.

Eu: Isso está errado.

Ele: O quê? – sorriso maroto – Tudo bem com você minha querida?

Eu: Não é assim que se faz. – tentando ser racional – Não é assim que se abordam pessoas na rua. Você esperou eu passar para falar de mim pelas costas.

Ele: Não querida – falsamente bonzinho – eu só comentei da sacola do Boticário.

Eu: Olha, eu não te disse nada, simplesmente passei e então você resolveu mexer comigo. Não é assim que se faz. Se você quer oferecer seu produto tem que fazer direito. Nem todo mundo gosta de ser abordado assim. – respirando para voltar a mim.

Ele: Não…desculpa. – um pouco menos bonzinho –  Olha, eu só queria te dar um brinde.

Eu: Se eu não parei para falar com você é porque estou com pressa – mentira – e eu passei e não mexi com você. Por que você acha que tem o direito de mexer comigo?

Ele: Eu só falei da sacolinha. – tentando por o braço no meu ombro – Olha aqui, eu quero te dar um brinde.

Eu: Eu não quero brinde.  – dando um passo para o lado – E não encosta em mim. E sabe o que tem aqui dentro? – abrindo a sacola – Não é perfume, é minha janta, tá bom.

Ele: Tudo bem – vendo que tinha entrado numa roubada e se afastando – desculpa. Eu só ia te dar um brinde.

Eu: Já disse, não quero brinde, mas você tem que aprender a abordar as pessoas. Não pode sair por aí falando pelas costas. E se eu quisesse comprar o perfume?

Ele: Ok, deixa pra lá.

Pedintes, vendedores, panfleteiros, pesquisadores e até ciganas; se forem falar pelas costas, certifiquem-se de que a pessoa (no caso eu) não vai ouvir. Nunca se sabe quando um momento de fúria está prestes a explodir.