Um presente para *Berinjela

Sabe o 365 nuncas? Sempre que posso dou uma olhadinha lá para ver o que a Elisa e a Steffania andam inventando. Esses nuncas são bem inspiradores afinal, são as escapadas da rotina que deixam a vidinha mais emocionante. Não tenho pique para sustentar um projeto como esse, tão prolongado, mas vez ou outra me pego pensando em fazer coisas diferentes.

Casei em Setembro e convidei a Helena para ser minha fotógrafa, coisa de camaradagem pois eu não tinha grana para pagar. Ela topou e fez meu making of no hotel, foi ao cartório e ao restaurante. Pouco mais de um mês depois recebi o arquivo com 500 fotos sendo 200 delas tratadas (e lindas). Pus na cabeça que tinha que recompensá-la de alguma forma mas que não podia ser em dinheiro. Resolvi dar uma caixa cheia de presentes e passei uma semana escolhendo o que iria para dentro da caixa. No final consegui comprar um porta retratos de metal (para colocar uma foto do casamento, rá!), uma blusinha verde, um chinelo amarelo perolado, uma caneca, um lenço estampado, um baldinho de balas de goma em formato de coração e uma berinjela de vidro. Agora eu precisava de uma caixa bem grande para colocar tudo. Passando em frente a uma agência dos correios bati o olho numa daquelas caixas amarelas que são usadas para despachar mercadorias. Comprei a caixa e alguns selos e finalizei a decoração com berinjelas. Arrumei tudo dentro dela e ontem pela manhã deixei em cima da mesa da Helena.

 

A caixa

A foto diz que ela gostou do presente.

A Berinjela Rebelde

Nunca tinha feito isso de juntar um montão de coisas e fazer uma surpresa mas foi tão bom quanto dar o presente.

* Beringela ou Berinjela? O Houaiss diz que as duas formas estão corretas. Escrevi Beringela na caixa mas acho que a Helena assina como Berinjela.

Ora, balas!

imagem: http://www.papeldeparede.etc.br/fotos/papel-de-parede_bala-de-coracao/

Como a mocinha estava para casar, as amigas fizeram uma vaquinha e lhe compraram um baleiro. Era um baleiro de vidro, réplica em tamanho reduzido daqueles que costumávamos encontrar nas vendas e bodegas de antigamente e que faziam a alegria da meninada. A mocinha aprovou a escolha e após o casamento o baleiro passou a ocupar o centro da mesa de jantar. Muito cuidadosa, a nova dona de casa mantinha o estoque de balas sempre em dia porque afinal, qual a serventia de um baleiro sem balas? Todas as noites após o jantar a mocinha catava algumas balas para chupar enquanto assistia TV. Acontece que o marido deu de implicar com o consumo periódico de guloseimas e ficava controlando quantas balas eram consumidas por dia. Um mês após o casamento o baleiro estava quase vazio. Vendo a esposa catar as duas últimas balas o marido fez uma cara enfezada e soltou:

- A senhora está proibida de comprar mais balas. Anda consumindo muito açúcar.

A esposa deu de ombros e foi dormir. No outro dia acordou antes que o marido e ao chegar na sala deu de cara com o baleiro vazio. Lembrou da ordem dada na noite anterior e sentiu o rosto ferver: quem era ele para decidir o que ela devia ou não comer. Se hoje estava proibindo-a de comprar balas, amanhã vetaria o uso de saia e não deixaria que ela saísse sozinha. Decidiu cortar o mal pela raiz. Rabiscou um bilhete e deixou debaixo do baleiro:

“Oi. Eu vou comprar balas para meu baleiro sim. Beijo.”

À noite, quando a mocinha chegou do trabalho encontrou em cima da mesa um pacote de balas com um bilhete do marido:

” Tá bom amor. Só precisa fazer durar mais tempo pra não estragar os dentes.”

O casamento estava salvo.

(Qualquer semelhança com a realidade pode ser mera coincidência. Será?)

O caso do guarda-chuva

imagem: http://heliosenaentrepalavras.blogspot.com/2011/04/guarda-chuva-ii_05.html

Fui almoçar em um restaurante novo. Fiz meu prato e subi para o mezanino. Escolhi uma mesa afastada do movimento. Esquecido num canto havia um guarda-chuva, desses pretos, tamanho família, que em dias de chuva fazem a alegria dos vendedores ambulantes. Olhei para os lados, nada. Ninguém com cara de que havia perdido alguma coisa. Almocei e o guarda-chuva continuou lá, imóvel. Primeiro pensei em deixá-lo para trás; depois considerei entregá-lo ao dono do restaurante na esperança que o proprietário fosse resgatá-lo. Por fim decidi levá-lo comigo. Não era o mais correto a fazer, e no passado já fizera questão de devolver outros guardas-chuva perdidos para os legítimos donos; ou pelo menos encaminhá-los a algum setor de achados e perdidos. Mas não desta vez. Mesmo correndo o risco de ser desmascarada decidi me apossar daquele objeto. Terminei minha refeição, levantei-me e peguei o guarda-chuva com uma naturalidade que só o verdadeiro dono poderia demonstrar. Desci as escadas e fui até o caixa. Se no meio do caminho alguém me interpelasse eu diria que estava justamente levando o objeto perdido para ser deixado à disposição do dono. Mas ninguém apareceu. Paguei a conta e retribuí o sorriso da moça do caixa. Quando pus os pés na rua fui tomada por um certo temor: e se o verdadeiro dono me encontrasse ali na porta, com a prova do crime nas mãos? E se diante da minha recusa em confessar o crime ele exigisse verificar os videos do restaurante? Meu rosto apareceria na tela da tv e nas minhas mãos estaria a prova do meu delito. Afastei esses pensamentos como quem afasta um pernilongo irritante e continuei caminhando. Ninguém me notou. Cheguei ao trabalho sã e salva.

O guarda-chuva está aqui, ao lado da minha mesa, aguardando apenas a próxima chuva para entrar em ação. Já são cinco e vinte e cinco da tarde. Daqui a cinco minutos eu encerro meu expediente. Ninguém veio reclamar um guarda-chuva perdido e não recebi nenhum e-mail ameaçador. Parece que consegui me safar, mas como o seguro morreu de velho, vou evitar aquele restaurante nos próximos dias; principalmente nos dias de chuva.

O que estou fazendo aqui?

Imagem daqui: http://www.t-chest.co.uk/index.php?main_page=product_info&products_id=204

Por dois dias essa pergunta não saiu da minha cabeça. Eu estava em um curso – algo relacionado a licitações e contratos – por mim frequentado por força do meu trabalho. Enquanto tentava me concentrar nas explicações, rabiscava palavras soltas em uma folha de papel. Eu olhava aquelas palavras e parece que elas me perguntavam “o que você está fazendo aqui?” ou ainda, cheias de razão, afirmavam “isso não é para você”. Me senti sufocada, entediada, deslocada.

Sempre aceitei o fato de que, de um jeito ou de outro, tenho que trabalhar e que esse trabalho não seria necessariamente algo prazeroso. Consegui um emprego estável (leia-se funcionário público) o que, para a maioria das pessoas, já é mais que suficiente. Não as culpo por isso, por desejarem um pouco de certeza num mundo tão inconstante. O problema é que para ter essa certeza, tenho que abrir mão de fazer algo novo, diferente, alguma coisa que realmente tenha algo a ver comigo. Mas a segurança (ou certeza) vicia pois afinal ninguém quer sentir-se ameaçado por reduções no quadro de funcionários, por crises financeiras ou pelo mal humor do chefe. Bem ou mal, para que eu consiga ser mandada embora, tenho que me empenhar muito. E assim o tempo vai passando, meses, anos, décadas.

Será que toda essa estabilidade paga o preço de dias como esses nos quais me sinto fora de lugar? Será que com um pouco menos de certeza, mas fazendo o que gosto, eu não estaria mais satisfeita?

Trabalho é somente trabalho?

 

 

 

It all ends

Faz mais de dez anos mas ainda lembro a primeira vez que segurei Harry Potter e a Pedra Filosofal na mão. Olhei a capa, verifiquei o conteúdo da  contra-capa, li a primeira página e alguma coisa naquela prosa clara chamou minha atenção. Eu podia não ter mais onze anos mas a história me deliciava como se tivesse. Realmente, sair do meu mundo trouxa e embarcar com Harry no Expresso de Hogwarts com direção a Hogsmeade era tudo o que meu lado criança desejava. E por mais de uma década, primeiro com os livros e depois com os filmes, senti a magia mais perto de mim.

A série acabou, Harry Potter cresceu e agora nos sentimos um pouco órfãos. Mas ainda assim fico feliz por ter tido a chance de acompanhar a saga. Um dia vou tirar da estante meus livros cobertos de poeira, vou sentar no sofá e deixar a magia me envolver…uma vez mais.

“Naturalmente está acontecendo dentro da sua cabeça, mas por que é que isto deveria significar que não é verdadeiro?”

Cabelo, cabeleira.

- Nossa! Como seu cabelo é fininho e lisinho, parece de bebê!

É isso que eu escuto quando vou ao cabeleireiro. Cabelo fininho e lisinho pode ser legal, para um bebê. Ter um cabelo como o meu é sempre um problema pois nem as mais poderosas presilhas conseguem ficar presas a ele. Desde que me conheço por gente até, sei lá, meus vinte e poucos, conservei meus cabelos compridos. Quando entrei na escola era minha mãe que cuidava do meu cabelo e ela não permitia que eu fosse para a aula com o cabelo solto. Mas como prender um cabelo tão escorregadio?

A solução encontrada: metros e metros de elástico. Minha mãe penteava bem meu cabelo, fazia um belo rabo de cavalo, dava voltas e mais voltas com o elástico e finalizava com uma bela maria-chiquinha. Realmente dava certo pois meu rabo de cavalo não desmanchava, mas em contra partida meu couro cabeludo ficava doendo e meus olhos ficavam ligeiramente puxados tal qual uma descendente do povo nipônico.

Um dia voltei da escola louca para me livrar do famoso rabo de cavalo mas minha mãe não estava em casa. Tentei tirar o elástico por conta própria mas quanto mais eu puxava mais preso ficava. Então, num momento de desespero fiz o que qualquer criança de seis ano faria, peguei uma tesoura e cortei aquilo que me prendia. Deu certo, o elástico soltou e junto com ele uma boa parte do meu cabelo.

Houve uma época em que minha tia inventou de fazer um curso de cabeleireira e me escolheu como cobaia. Ainda hoje lembro do cheiro daquele líquido usado para permanentes (e se você se identificou com a palavra permanentes, sabe de que década estou falando). Depois de umas duas ou três tentativas de cachear meu cabelo minha tia chegou a duas conclusões: ou ela era uma péssima cabeleireira ou meu cabelo não se deixava dominar facilmente – eu fico com a segunda alternativa.

Na adolescência quis experimentar coisas novas. Primeiro o papel crepom. Se você quer dar uma mudada no visual para curtir aquela festa à fantasia, eu recomendo. Depois os xampus tonalizantes. Primeiro só uma mecha de acaju, depois o cabelo todo. Era a época da rebeldia.

Fui crescendo e as experiências capilares continuaram. Deixei comprido, depois médio, depois curto, longo novamente, vermelho, mais loiro, mais escuro. Tentei deixar com mais volume, me arrependi, cortei mais curto que antes, fiz franja, deixei ela crescer, tentei fazer escova e babyliss e concluí que era perda de tempo.

Depois de muitos anos decidi aceitá-lo do jeito que é: liso, fininho, pouco. O desafio é achar um cabeleireiro que o compreenda. Eu achei uma que fez um corte bem legal. Infelizmente quando voltei ao salão a cabeleireira não trabalhava mais lá. Cortei com outra mas não foi a mesma coisa. Já estava perdendo as esperanças quando decidi seguir uma dica da Berinjela Rebelde e fui no Lolitas*. Posso dizer que hoje sou um ser humano bem mais feliz (e fiz a Isis – cabeleireira do Lolitas – prometer que nunca deixará o salão)

A foto, infelizmente, não faz jus à minha alegria.

* Propaganda gratuita pro Lolitas. Só o lugar já é uma atração à parte. Recomendo.

Acabou-se o que era…

Esse último feriado foi o primeiro em quase seis anos em que eu não fiz absolutamente nada e não estou me sentindo culpada por isso. Na quarta-feira passada fiz minha última prova na faculdade. Por questões técnicas continuarei matriculada por mais um semestre e farei minha formatura no início de 2012, mas não tenho mais nenhum compromisso formal com a UFPR.

O que sinto agora é alívio e saudade. Alívio pois agora posso chegar mais cedo em casa, ficar de pernas para o ar no fim de semana, jogar vídeo-game, assistir TV até enjoar e ler os livros que eu quiser e não os que os professores mandam ler.

Mas já sinto saudade. Saudade da cantina barulhenta, da emoção de pegar um elevador e não saber se ficará preso no meio do caminho, da bagunça organizada no dia do ajuste de disciplinas. Tenho saudade das aulas no anfiteatro, das disciplinas cujos nomes não têm nada a ver com o conteúdo, dos professores que ao seu modo realmente querem transmitir conhecimento e principalmente, saudade dos colegas que, ao longo desses quase seis anos, se revelaram amigos verdadeiros.

Apesar das cinco horas de sono diárias, dos finais de semana à volta com planos de aula e unidades temáticas e das madrugadas em claro; tudo valeu a pena e se eu fosse um pouco mais louca faria tudo de novo.

O diploma é importante, mas mais que isso, o que realmente valeu a pena para mim não foi o destino final e sim a viagem.

Momento de fúria – Doe um fone para um funkeiro

Existe no Facebook a campanha “Doe um fone para um funkeiro” e eu sou a favor dela. Sou tão a favor que já dei minha contribuição e não foi com a doação de um fone de ouvido…

Peguei em Tietê (São Paulo) um ônibus com destino à capital. É comum esses ônibus que saem do interior, pararem de cidade em cidade antes de chegar ao ponto final. Quando saí de Tietê o ônibus ainda estava vazio e silencioso, mas foi só chegar na segunda parada que o sossego foi embora. Entre os novos passageiros, dois mereceram uma atenção especial. O primeiro sentou-se nos primeiros bancos e pôs o celular para funcionar – sem fone – num gênero musical duvidoso*. Felizmente o barulho não chegava até meus ouvidos. Já o outro passageiro sentou do lado oposto ao meu no ônibus, uns dois acentos para frente. Ele entrou no veículo já com o celular na mão, mas ainda com fones nos ouvidos. Guardou a bagagem, ajeitou-se no banco e, com a maior cara de pau do mundo, tirou o fone do celular obrigando todos a ouvirem sua seleção musical.

Vamos combinar que este cidadão agiu de caso pensado e foi egoísta? Propositalmente tirou o fone do aparelho faltando assim com o respeito aos demais passageiros e obrigando-os a agüentar seu sertanejo brega*. Eu, que estava calma até então, vi tudo ficar vermelho, vermelho de ódio. Eu poderia ter ido até o banco do rapaz, pedido para ele colocar de volta os fones, mostrado que é falta de respeito agir daquela maneira… Mas não, eu fiz melhor; declarei guerra. Saquei meu celular, coloquei no último volume e dei o play.

Enquanto ele atacava de Luan Santana eu respondia com The Cure, Bob Marley, Santana, Smashing Pumpkins, Titãs, REM e Billy Idol. Se é para incomodar, vamos fazê-lo com estilo. O ônibus transformou-se em uma caixa de som ambulante. De vez em quando meu oponente olhava para trás não acreditando no que estava acontecendo e eu lá, firme e forte vendo quem ia desistir primeiro, pois estava disposta a lutar até minha última barrinha de bateria. Os demais passageiros não se manifestaram, provavelmente deliciados com aquela batalha inesperada, e muitos demonstravam estar do meu lado, pois balançavam a cabeça e até acompanhavam algumas das minhas músicas.

Uma guerra não se vence só com armamento pesado. É necessário ter uma estratégia, e eu tinha uma. Quando o ônibus entrou na próxima cidade eu desliguei meu celular. Meu oponente deve ter achado que havia ganhado a batalha. Pobrezinho. Assim que paramos na rodoviária uma funcionária da empresa de transporte (detalhe, meus dois companheiros de viagem ainda estavam com o som no máximo) entrou no ônibus e, de uma maneira bem severa, tal qual inspetores de colégio, mandou que todos desligassem seus celulares barulhentos e se caso alguém desejasse ouvir música que o fizesse com os fones de ouvido uma vez que havia uma lei que dizia ser proibido som alto dentro de coletivos. E falou mais, falou que se alguém insistisse em descumprir a lei o motorista tinha ordens de parar o ônibus no meio da estrada e retirar o causador do barulho.

Minha batalha estava ganha. Meu oponente colocou o fone de ouvido e eu pude terminar minha viagem em silêncio.

* antes que os admiradores de funk e sertanejo brega reclamem, tenho a declarar que, apesar de gostar de rock e de ele soar muito mais agradável aos meus ouvidos, também acharia errado se um roqueiro quisesse compartilhar suas músicas dentro de um coletivo. Mas devo confessar que sim, odeio funk, axé e sertanejo e tenho todo o direito de odiar afinal essas aqui são as Minhas Fabulosidades.