Onde fica meu lar

– Mas então você é mais curitibana que paulista.

Foi essa conclusão que ouvi ao relatar a um conhecido que moro aqui há pelo menos treze anos. Imediatamente uma voz dentro de mim gritou que não, de maneira alguma eu havia deixado de ser paulista, mesmo estando há tanto tempo longe do local onde nasci. Com certeza alguns perguntariam por que não volto para São Paulo já que aqui não me sinto em casa. Sinto-me em casa morando aqui. Acostumei-me às coisas boas que a cidade oferta e, como todos os moradores, não me conformo e reclamo da coisas ruins com as quais me deparo todos os dias. Acontece que o sentimento que me impulsiona a negar a minha cidadania curitibana está além da ideia de morar – é uma questão de pertencimento. Por mais tempo que passe longe da minha terra, quando para ela retorno é como se retornasse à casa materna – alguns móveis mudaram de lugar, a parede da sala ganhou mais uma mão de tinta e apareceram duas novas trincas na vidraça do quarto, mas, ainda assim, o cheiro de coisa conhecida se faz presente. Andar pelas ruas da minha terra é puxar o passado pelo braço e ir reconhecendo, aqui e ali, casas, prédios e ruas – cenários de antigas histórias em que eu era a protagonista. Talvez daí venha a identificação com esse lugar: sou uma personagem que, ao menos sob meu ponto de vista, tem grande importância na história dessa cidade. Se procurarem bem acharão, na minha certidão de batismo, no meu histórico escolar e até no certificado da primeira comunhão, lado a lado o meu nome o o nome do lugar em que nasci. E se um dia eu for importante a ponto de merecer um novo registro na história, provavelmente escreverão logo após meu nome: natural de São Paulo.

Curitiba, repito, é minha casa. Aqui tenho trabalho, aqui guardo minhas coisas. Curitiba é uma casa quase lar, mas São Paulo jé era meu lar mesmo antes de eu saber.

 

Bundas evoluídas

Estava assistindo um filme na TV e entre uma pausa e outra para a publicidade, um anúncio aparecia repetidas vezes. Neste anúncio uma mulher com jeito de madame entrava no banheiro, olhava o cesto de lixo e gritava: Alfredoooooooo!!!!! Imediatamente aparecia o Alfredo, vestindo um traje de gala no melhor estilo mordomo-esnobe-de-filme-de-suspense. Para completar o figurino o tal Alfredo trazia nas mãos uma badeja e na bandeja descansava, superior e poderoso, um rolo de papel higiênico. Seguiam-se então repetidos elogios ao papel higiênico e sua magnifica performance.

Pois é, saudade do tempo em que papel higiênico nada mais era que um item básico de higiene. Podem me chamar de saudosista – eu sou – mas no tempo em que o papel higiênico do meu banheiro era cor-de-rosa e não vinha acompanhado por um mordomo, a vida era bem mais simples.

Eu “fumei” vários cigarrinhos de chocolate e nem por isso me transformei em fumante, sabe por quê? Porque na minha casa ninguém era fumante, nem pais, nem avós, simples assim. Além de fumar, eu cantei a plenos pulmões “Atirei o pau no gato-tô, mas o gato-tô não morreu-rreu-rreu…” e por incrível que pareça não me tornei uma serial-killer; tinha mais medo dos gatos que eles de mim. No dia 19 de Abril fazíamos cocares e colares de jornal e comemorávamos o dia do índio pois índio era aquele que morava numa oca, caçava e pescava. Os índios de hoje fecham estradas para cobrar pedágio e se vendem para os gringos.

Aos Domingos sentávamos em frente à única TV da casa e assistíamos os Trapalhões. Quantas vezes ouvi o Mussum (de longe o mais engraçado dos quatro) dizer “Quero morrer pretis a ter que tomar leite!” e simplesmente adorava as cenas em que algo explodia e o Didi, Dedé e Zacarias ficavam com o rosto preto de fumaça e o Mussum ficava com o rosto branco. Meu raciocínio era simples: existiam pessoas negras, como o Mussum, e pessoas brancas, como eu, e a única diferença visível entre elas era a cor, ou será que não é assim?

Mas se antes tínhamos que dividir em cinco pessoas uma única garrafa de Coca Cola de 1 litro, hoje posso levar para casa uma garrafa de 3 litros! É ou não é um sonho? Tomar Coca Cola até sair pelos ouvidos. Coisa boa é que hoje em dia a justiça está ao alcance de todos. Por isso cuidado com as brincadeiras que faz com seus colegas de trabalho, de uma hora para outra poderás ser processado por algum tipo de assédio: condenado por usar sua inteligência e bom humor para fazer aflorar a falta de humor de outrem. E nem tente usar ironia, dificilmente irão entender.

As coisas estão melhores para as mulheres também. Elas estudam mais, conseguem melhores empregos, são independentes, recebem melhores ofertas para posar para a Playboy, leiloam sua virgindade e, ao cultivarem uma bunda do tamanho de dois globos terrestres unidos por fita crepe, recebem carinhosos apelidos de fruta e são tratadas como rainhas.

Mas voltando ao papel higiênico, devo admitir que atualmente nossas bundas são mais bem tratadas que no passado quando tínhamos que nos limpar com um papel cuja qualidade era bem semelhante a de uma *lixa. É, os traseiros evoluíram e mereceram mais atenção de nossa parte. Pena que não posso falar o mesmo dos cérebros.

*O pioneiro na fabricação do papel higiênico cor-de-rosa esclarece aqui que seu produto sempre foi de excelente qualidade. O que aconteceu foi que empresas oportunistas aproveitaram o sucesso do papel Primavera e começaram a oferecer papéis de qualidade inferior maculando a imagem do rolinho rosa.

A Velha, o Dinossauro e o Buquê

– Trinta e dois – falou ela baixinho.

Trinta e dois já. Como esse tempo, ingrato, passa rápido. Às vezes chega a duvidar do que seu RG informa. Sei lá, talvez algum erro de digitação por parte do funcionário mal humorado da Secretaria de Segurança ou, quem sabe, algum engano do cartório que lavrou sua certidão de nascimento afinal, naquela época não existia essa coisa de ISO, selo de qualidade… A verdade é que não se sentia com trinta e dois anos. Lembrava ainda do tempo em que tinha a metade disso e, ao seu ver não tinha mudado tanto assim. A cabeça pelo menos continuava mais ou menos a mesma, acrescidos aí alguns anos de juízo e responsabilidade.

– Desculpe senhora, não entendi.

E agora haviam começado a tratá-la por senhora. Senhora – que chamamento deprimente. Isso é sinal de respeito diriam alguns. Se soubessem o quanto esse “sinal de respeito” a deixava para baixo não continuariam a aplicá-lo. Para ela isso só queria dizer uma coisa: que estava ficando velha. Talvez fosse o momento de começar a gostar de gatos e aprender a tricotar.

– Trinta e dois – disse ela um pouco mais alto, mas não o bastante para que o homem atrás dela na fila escutasse.

E agora essa mania de ter que falar a idade em repartição pública, banco, consultório médico… Se eles já pedem o RG, por que diabos tem que ficar perguntando sua idade. Está tudo lá, é só fazer as contas!

– Ok, Trinta e dois anos. Endereço?

Maldito! Tinha que repetir a idade em voz alta? Tinha? Não basta fazê-la lembrar que já não é uma garotinha. Tem que tripudiar em cima da desgraça alheia? Deve estar rindo por dentro, o desgraçado. Rindo do mesmo jeito que ela riu da cara de um sujeito na praia. Devia ter uns dezesseis anos e estava andando no calçadão com sua mãe quando um rapaz um pouco mais velho veio de encontro a ela, a encarou e soltou um “gatinha”. A cantada foi tão ridícula que ela deu uma gargalhada. Dois passos à frente a mãe olhou para ela e disse que ela estava desdenhando agora que era jovem e atraía todos os olhares mas que um dia ia sentir falta disso.

Por que as mães sempre têm razão?

– Rua das Laranjeiras, 735.

Semana passada saiu com a turma do trabalho para fazer um lanche. Quando estavam indo embora da lanchonete ela ficou para trás e ao passar ao lado de uma mesa foi parada por um homem baixinho e careca de uns cinquenta anos (se bem que naquele momento pareceu a ela que ele tinha bem mais, cento e dez, cento e vinte talvez?) que na maior cara de pau confessou que passara a noite observando-a e queria saber se ela estava acompanhada. Demorou alguns segundos até ela entender o que estava acontecendo e quando ela caiu em si disse que estava atrasada saiu quase correndo sem olhar para trás como se estivesse fugindo de um zumbi-bicentenário-comedor-de-ex-mocinhas-na-casa-dos-trinta.

Nem as risadas dos colegas sobre o ocorrido a livraram da sensação incômoda de ter atraído um pretendente que em casa devia usar chinelo de pano.

– Data da última menstruação?

É, pelo andar da carruagem talvez fosse mesmo a última da sua vida. No sábado fora ao casamento de uma amiga (sortuda, nem trinta anos e conseguiu um marido) disposta a deixar para trás a cantada na lanchonete. Comprou vestido novo, sapato, foi ao salão fazer cabelo a maquiagem, quase estourou o limite do cartão, mas valeu a pena: sentiu-se  renovada.  Durante o jantar conversou e deu risada. Tudo ia tão bem que até se animou a ir disputar o buquê da noiva, porque nunca se sabe…

Lá pelas tantas um senhor alto e grisalho com uma respeitável barriga de cerveja e aparentando ter uns cinquenta e cinco anos (que para ela parecia algo em torno de cento e vinte ou cento e trinta anos) apareceu na sua frente com a seguinte proposta: se eu acertar seu nome você me dá um doce e se eu errar eu lhe dou um doce, que tal?

Céus! Mais um  zumbi-bicentenário-comedor-de-ex-mocinhas-na-casa-dos-trinta a perseguí-la? Quer dizer que nem aquele dinheiro gasto com a super produção foi suficiente para atrair pretendentes que não tenham pertencido ao período Jurássico?

“Valéria” ele disse. É, acertou seu nome. “Mas não vou cobrar a aposta, eu tinha informação privilegiada. O noivo me contou seu nome” disse isso e felizmente voltou para a pista de dança, não sem antes lhe presentear com alguns passos que lembraram muito a dança do passarinho.

É, estava confirmado. O jeito era comprar uma cadeira de balanço e começar a tricotar um pulôver. Decidiu não esperar pelo buquê pois poderia de fato conseguir um pretendente cujo passatempo favorito fosse jogar dominó na pracinha do bairro.

– Vinte de cinco de outubro – declarou ela com voz pesarosa.

– Prontinho. Final do corredor à esquerda. A enfermeira está esperando para colher seu sangue.

Lá foi ela acreditando que o exame de sangue no mínimo apontaria colesterol e trigliceridios altos. Coisas da idade.

O rapaz da recepção, um moreno bem apessoado de uns vinte e seis anos, a acompanhou com os olhos até ela sumir no corredor, virou para a atendente na mesa ao lado e disse:

– Linda essa moça, pena que ela é paciente aqui da clínica, se não a convidaria para tomar um café.

O caso do mendigo

É, podem reclamar, de novo ele. Mas eu tenho direito afinal não compartilhei a foto e nem comentei. O máximo que fiz foi “curtir” pois achei  interessante um mendigo de olhos azuis. Só no fim do dia fui saber que ele era ex-modelo, viciado em crack e morador das ruas de Curitiba.

Graças ao Facebook a foto foi compartilhada zilhões de vezes, o rapaz ficou famoso e a TV localizou e entrevistou sua família. Teve até um telejornal sensacionalista que tentou entrevistá-lo, mas de noite, numa rua deserta e sob efeito de drogas ele não me pareceu tão bonito quanto na foto.

Hoje pela manhã ouvi no rádio: aconteceu o que a mãe dele mais queria, ele foi internado para tratamento. Uma clínica de São Paulo ofereceu. Coisa boa porque, oras, como pode um moço tão bonito estar jogado na rua? Não é justo, é? Mas então eu pensei:  se não fossem os olhos azuis ele ainda estaria perambulando pelo Largo da Ordem.

No Facebook, sempre que alguém ousa publicar a imagem de uma pessoa doente e debilitada com o intuito de conseguir algum tipo de ajuda, é logo deixada de lado. Na rede social nossas vidas são perfeitas, temos os melhores amigos , as melhores refeições, as melhores férias e nossos olhos sempre são azuis. A foto do belo sem teto é agradável ao olhar e ao mesmo tempo cativante. Que ele realmente se recupere.

Quisera que todos os mendigos  tivessem olhos azuis.

Hoje estou usando calcinha bege.

Minto. O sutiã também é bege. Além de ter essa cor, este conjunto de “roupas de baixo” não tem rendas, lacinhos e muito menos brilho. Não é sexy, não é bonito mas é muito confortável. É tão confortável que o elástico já está ficando um pouquinho gasto, de tanto que eu uso. Neste exato momento deve ter um monte de mulher tentando arrancar a calcinha-fio-dental-com-renda-de-oncinha pela cabeça. Como ousas – bradarão elas – não usar uma roupa de baixo adequada à sua condição de fêmea sedutora? Ah, eu ouso sim. Sabem o que eu não ouso? Passar o dia incomodada com uma microcalcinha tentando adentrar lugares onde não é bem vinda e nem me sentir oprimida por bojos e arames que limitam meu conforto.

Sua louca – gritarão as fêmeas sedutoras – então você não sabe que calcinha bege é coisa de vó, e pior, é extremamente broxante!? Quantas vezes eu já ouvi esse papinho que calcinha bege é “o fim do mundo”? Cá entre nós, eu não costumo passar minhas oito horas de trabalho pensando que a qualquer momento o Stanley Kowalski (dá um Google lá) vai entrar aqui na sala me chamando de Steeeeeeeeeeeelaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!, vai me pegar no colo e me deitar no solo… E mesmo que isso acontecesse, a última coisa que aconteceria seria o Kowalski olhar bem nos meus olhos e dizer: meu amor, com essa calcinha bege não dá!

Olha só, eu respeito aquelas que gostam de dividir um segredinho com a Victória, que querem estar sempre alertas pois nunca se sabe né, num momento você pode dar um tropeção no Brad Pitt e no seguinte estar dividindo a cama com ele, mas eu tenho a leve impressão de que se você for dormir com um cafajeste a primeira coisa que ele não vai querer ver é sua calcinha de rendinha, e se você for dormir com o amor da sua vida a última coisa que vai fazê-lo deixar de amar é se sua calcinha é mais ou menos sensual.

Tá, eu concordo, a calcinha certa no momento adequado pode operar milagres, mas não creio que esse milagre vai acontecer às oito da manhã dentro do Inter 2 lotado.

Faz um bom tempo já, eu li um livro chamado “Um amor de maria-mole”, livro para adolescentes. Ele era escrito em forma de diário e a autora ia dividindo com os leitores suas descobertas e decepções. Um dos momentos mais importantes foi quando ela foi dormir com um garoto pela primeira vez. Ela ficou uma tarde inteira decidindo qual pijama deveria levar. No outro dia ela escreveu no diário:

– A noite foi ótima e eu não precisei do pijama

(para não puxar a sardinha apenas para o meu lado, eis aqui uma opinião de macho)

Nuage

O nome dela é Bia.

Cabelo castanho. Olhos de mel.

Cheiro bom de sabonete.

Sorriso difícil, lindo.

Eu gosto dela.

Às vezes ela olha para mim.

Fico com vergonha.

(nunca vou alcançá-la)

Mas ontem o dia estava chuvoso.

Ficamos, eu e ela, esperando a chuva passar.

Silêncio.

Pés e mãos geladas, olhos tímidos.

Me olhou.

– Sabe, eu gosto de você.

Lábios fervendo.

Trocamos beijos durante um minuto eterno.

Fui embora na chuva, rindo de uma piada não contada.

Cheguei em casa,

tirei os sapatos e

deitei nas nuvens.