O Carnaval nunca foi uma data importante. Nunca fui a uma matinê e nunca me vesti de odalisca (a fantasia preferida durante minha infância). Mas tem uma coisa que sempre me lembra o carnaval, e da maneira mais engraçada.
Eu devia ter uns cinco ou seis anos. Sentado na soleira da porta da casa da minha avó estava meu tio, e em pé, atrás dele, estava eu. Enquanto ele tomava sol para curar a ressaca eu brincava de catar bolinhas de confete perdidas no meio daquela cabeleira estilo black power.
É isso que me faz lembrar o carnaval, as bolinhas de confete espalhadas no cabelo do meu tio.
Enquanto meus pais eram a imagem da responsabilidade esse meu tio representava tudo o que era menos responsável e por isso mesmo mais divertido. Meu tio só acordava na hora do almoço, mas não levantava imediatamente. Gostava de ficar deitado na sala assistindo desenhos. Que criança não vai amar um adulto que pode ficar em casa assistido desenhos? Não sei se ele trabalhava e nem que horas isso acontecia. Essas questões não cabiam na minha cabeça de criança. O que sei é que para mim ele era o melhor tio do mundo. Estava sempre de bom humor, sempre fazendo brincadeiras e era o primeiro que corria me consolar quando minha mãe me dava bronca. Não me lembro nunca de tê-lo visto preocupado ou enfezado, e mesmo que a situação fosse grave, sempre fazia caber uma piada.
Depois que ele casou nós nos víamos menos, mas era só ter um Domingo de sol que ele aparecia de repente lá em casa nos convidando para descer a serra do mar. Pegávamos a estrada a bordo de um imponente Galaxy preto, no toca-fitas a Alcione nos fazia companhia.
Fui crescendo e percebendo que viver a vida de forma menos responsável tinha suas consequências. De vez em quando meu tio aparecia com as marcas das brigas em que se metia. Um dia apareceu com o dedo mindinho quebrado, mas ao invés de praguejar fez algo melhor, narrou toda a briga (algo que envolvia bebida e bilhar) até sua fuga extraordinária escapando por pouco de ser acertado por um taco de bilhar. E deixou claro que só fugiu por que eram cinco contra um, afinal ele podia ser louco, mas não bobo.
Moramos perto, moramos longe, moramos pertinho novamente e, mesmo com o passar dos anos, ele continuava o mesmo. Acho que foi o primeiro a perceber que eu, já adolescente, precisava me divertir e até se ofereceu para me levar numa danceteria famosinha lá em São Paulo.
Um dia ele cismou em participar da São Silvestre já que o percurso passava pertinho de onde morava. Sem treinar e muito menos sem fazer a inscrição pôs um shorts, calçou um tênis e ficou aguardando pacientemente no meio fio até que avistou o pelotão de elite. Então, sem nenhuma cerimônia, correu para junto dos primeiros colocados e os acompanhou por alguns metros até ser retirado da pista por policiais, estampando no rosto um sorrisinho sacana que queria dizer “alguém ainda duvida?”
Eu achava meu tio forte pra caramba, desses sujeito malandros que se metem em confusão mas sempre consegue escapar (quase) ilesos. Mas ele tinha uma fraqueza. Meu tio bebia demais. E isso, combinado ao fato de ter uma doença hereditária, fez sua saúde piorar cada vez mais. Mas nem a doença o intimidava e quando alguém dizia que se ele não se cuidasse morreria cedo, respondia bem calmamente: “E quem disse que eu quero viver muito?”.
Assim como o Carnaval ele chegou com festa a algazarra, incomodando uns, divertindo outros tantos e indo embora com uma sensação que poderia ter durado mais um pouco. No final sua vontade foi feita.
E não podia faltar um samba para te homenagear.










