Coincidências ou como a cultura pop é foda!

O que o Impressionismo, a banda The Smiths e o filme Ferris Bueller’s Day Off têm em comum?

O Impressionismo é um movimento artístico que surgiu na França no século XIX. Os artistas impressionistas pintavam ao ar livre utilizando pinceladas soltas enfatizando a luz e o movimento. Esses artistas foram revolucionários pois conseguiram captar, através de sua arte, as transformações sociais ocorridas no final do século XIX, transformações essas que deram inicio à Modernidade.

Nas últimas semanas tenho juntado muitos materiais referentes a esse movimento e uma das pinturas me chamou a atenção. O nome da tela é “Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte” pintada por Georges Seurat em 1884.

Georges_Seurat_-_Un_dimanche_après-midi_à_l'Île_de_la_Grande_Jatte

 

Assim que vi o quadro me lembrei do filme do Ferris Bueller, mais especificamente a cena do museu (o Art Institute of Chicago). Essa é a cena mais doce do filme e é quando o perturbado Cameron fica hipnotizado pela menina de branco no centro da tela.

Mas a sucessão de coincidências não para por aí. A música, linda, que toca durante a cena é uma versão instrumental de Please, Please, Please, Let Me Get What I Want dos Smiths.

Não acredita? Confere aqui na voz maravilhosa do Morrissey:

Sou fã do filme (daqueles que já o assistiram um zilhão de vezes) e, mesmo estando na categoria Sessão da Tarde, sempre o considerei excelente. Quanto aos Smiths, eles fizeram parte da minha adolescência. Lembro de ficar horas no meu quarto ouvindo suas músicas, cinco, dez, quinze vezes seguidas. A junção dessas duas manifestações artísticas com algo tão inovador, como foi o Impressionismo para sua época só me faz ter certeza de quão rica pode ser a cultura pop, quando bem utilizada.

Cinquenta tons de cinza (e mais alguns)

Num sábado à tarde estava dando uma volta entre as prateleiras de uma livraria quando comecei a reparar na grande semelhança entre as capas de alguns livros. Todos eles de alguma forma faziam alusão à trilogia Cinquenta tons de cinza. Não pensei duas vezes e comecei a fotografar.

Em todos os volumes a cor que predomina é a cinza (e seus vários tons). As palavras usadas nos títulos denotam uma sensação que fica entre o prazer e a dor com um leve toque de inocência e submissão dando a entender que o narrador é daquele tipo que quer muito, mas não tem coragem de admitir. Era mais de uma dezena de livros, mas no final fiquei com a impressão de ter fotografado o mesmo livro, apenas variando os ângulos.

Não li Cinquenta tons… e nenhum desses outros títulos. Não sei se são bons ou ruins, nem sei quem são os autores, o que sei é que de repente parece que só serei uma mulher realizada se:

– tiver um caso com um milionário, ou similar;

– for totalmente submissa a ele;

– e mesmo que queira muito uma boa trepada noite de amor, devo fazer de conta que não é comigo.

Engraçado que este tipo de literatura sempre existiu mas atendia pelo nome de Sabrina e Julia. E mulher que lia esses livros era (classificada como) ingênua e/ou mal comida. Mas agora quem lê Cinquenta tons… e seus genéricos (pois tá no jornal, tá na Globo! tá na Veja!) é esclarecida, moderna e atualizada (além de sexy e poderosa).

Vai entender.

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O que você quiser – envolvida por um bilionário

(e quem não ia querer?)

 

 

 

 

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 50 versões de amor e prazer

(olha o número mágico aí)

 

 

 

 

 

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A Casa da Submissão – Uma história cinquenta tons acima

(abaixo, de lado, de ponta cabeça…)

 

 

 

 

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Valentina – na câmara escura

(pra quem tem vergonha de tirar a roupa)

 

 

 

 

 

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A noiva despida – Quais são os limites do desejo?

(pra quem quer esperar até o casamento)

 

 

 

 

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Toda sua – Ele me possuiu e eu fiquei obcecada…

(essas são perigosas)

 

 

 

 

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No limiar do desejo – Render-se ao prazer só é libertador se você se entregar por completo

(humrum, por completo, sei)

 

 

 

 

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Não posso me apaixonar – às vezes resistir é impossível…

(e se você for profissional do sexo, pode acabar com sua carreira)

 

 

 

 

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Amante renascido

(the walking dead?)

 

 

 

 

 

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80 dias – a cor da luxúria

(50 tons, 80 dias, é o sexo indo para a área das exatas)

 

 

 

 

 

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falsa submissão 

(aquelas que não se comportam nem apanhando de cinta)

 

 

 

 

 

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Bem profundo

(precisa comentar?)

 

 

 

 

 

 

Três

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Desci do ônibus e parei na esquina esperando para atravessar a rua. Na esquina oposta avistei gigantescos laços cor-de-rosa escandalosamente enfeitando a fachada de uma farmácia e anunciando descontos incríveis em comemoração ao Dia Internacional da Mulher

Fiquei matutando: qual é para mim o real significado desse dia? Para que ele serve além de permitir que eu compre xampu mais barato? Então lembrei de algumas mulheres. Essas mulheres que eu lembrei não vão aparecer na TV, não terão seus nomes lembrados no rádio e nem suas fotos publicadas nos jornais, mas nem por isso deixam de ser importantes. São mulheres que travaram batalhas intimas, que carregaram fardos , que muitas vezes tiveram que endurecer sua pele transformando-a em armadura mas que nunca deixaram calar seus corações.

Hoje esse texto está sendo escrito a oito mãos. Hoje as ideias fluem da minha cabeça, correm pelos meus braços e escapam pelos meus dedos porque um dia três mulheres me deram a chance de existir.

Angela, Josefa e Tereza – esse é o significado desse dia.

Armário de Pessoas

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Sou muito apegada ao passado, ao menos acredito que seja. Muitas vezes essa condição faz com que eu me demore a seguir em frente, mas outras tantas me faz dar valor às coisas vividas e às pessoas que fui conhecendo. Esqueço de muitas coisas, porém lembro de outras com uma riqueza de detalhes enorme. Essas coisas muitas vezes não têm a mesma importância para aqueles que as dividiram comigo. Muitos nem lembram de determinados momentos. Mas para mim tais momentos foram marcantes.

Estava pensando cá com meus botões o porque dessa minha fixação com o que já foi. Entendi que minha fixação não é em um determinado dia, em um determinado ano. O que colaborou para que certo dia se tornasse inesquecível foram as pessoas que partilharam dele comigo. Nessas ocasiões consegui manter uma conexão com os demais, ainda que os demais não a tenham percebido. Devo ter conseguido chegar bem perto da essência do outro e isso deixou marcas em mim.

Aqui, dentro da minha cabeça, tenho um armário que acreditava ter a seguinte etiqueta: Momentos Marcantes. Estava enganada. Estou trocando a etiqueta para Pessoas Marcantes. É isso. Algumas dessas pessoas estão do meu lado até hoje. Com outras eu dividi alguns anos, alguns meses. Algumas ficaram do meu lado apenas por algumas horas. Mas independentemente do tempo, todas que estão ali, guardadas no meu armário, marcaram a minha vida de uma forma boa e é por isso que as trago comigo, em forma de recordação, até hoje.

Neste armário você ocupa uma das gavetas.  De vez em quando eu abro o armário e vou até a sua gaveta só para ver o que tem dentro. Viro e reviro risadas, abraços, beijos, palavras, passos, silêncios, do mesmo jeito que fazemos quando abrimos uma caixa de recordações e pegamos em fotos, cartas, papéis de bala, flores secas.

É uma honra poder ser dona de uma gaveta cheia da sua essência.

Achados e Perdidos

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A Moça encostou no balcão e ficou olhando com interesse as prateleiras abarrotadas de objetos. O Homem surgiu dos fundos da pequena sala e perguntou se podia ajudá-la.

– Eu perdi uma coisa

– Como você pode ver aqui tem um monte de coisa achada. Mas me diga o que você perdeu?

– Não sei bem ao certo. – disse ela enquanto passava os olhos pelas estantes.

– Hum, assim fica um pouco mais difícil. Você saberia me dizer mais ou menos o tamanho do que você perdeu? É grande ou pequeno?

– Não lembro. Eu espero que não seja muito grande pois se não encontrar vai ser difícil substituí-lo.

– Lembra da cor?

– Muito pouco. Acho que era azul, ou talvez verde. Já faz um tempo que eu perdi. Talvez agora esteja cinza.

– Entendo. Só um minuto.

O Homem foi até o fundo da sala e voltou carregando um caderno velho, bem maior que o maior caderno que a Moça já tinha visto. Colocou-o sobre o balcão e foi virando as páginas que a cada movimento mais brusco exalavam um cheiro de guardado.

– Onde você perdeu?

– Desculpe mas não sei ao certo. Sei que não foi do dia para a noite. Acho que foi aos poucos. Eu fui deixando de cuidar dele e depois de algumas semanas ele tinha desaparecido.

– Bom, só nos resta ir por eliminação. – disse isso enquanto passava o dedo enrugado por cima das linhas de uma página. Ali, anotados com uma letra caprichada, estavam os nomes dos objetos encontrados, a descrição, a data em que foram para lá e a data em que haviam sido resgatados pelos seus donos. Essa última anotação era rara e justificava a super lotação na pequena sala. – Você tem filhos?

– Não.

– E a relação com sua mãe?

– Muito boa.

– Então não é caso de perda de Amor de Mãe. Se bem que é raríssimo alguém perder isso. Em todos os anos que trabalho aqui isso aconteceu apenas uma vez. Não foi uma coisa bonita de se ver.

– Mas a pessoa que perdeu conseguiu recuperá-lo?

– Sim, mas demorou anos. – puxou uma caixa empoeirada da prateleira – Aqui, dê uma olhada nessa caixa.

A caixa estava cheia de RGs, alguns muito antigos e outros mais recentes. Eram centenas de rostos desconhecidos.

– Não, nada. Se bem que por um tempo eu pensei ter perdido a minha Identidade. Acho que realmente perdi pois quando olho para trás me pergunto como posso ter feito as coisas que fiz.

– Certo. – virou mais uma página do livro – Consciência?

– Essa eu tenho certeza que não perdi pois está tão pesada que mal consigo dormir à noite. E pode eliminar Juízo também. Está certo que nunca tive muito, mas entendi que não há como viver sem.

– Juízo eu tenho de sobra aqui. Está vendo aquele armário lá no canto? Está cheio de Juízo e somente algumas pessoas vêm procurá-lo. Até parece que perdem de propósito. Tristeza?

– Muita.

– Esperança?

– Foi o que me trouxe até aqui. Passei  por muitos outros lugares iguais a esse e não consegui encontrar nada. Este aqui é minha última tentativa. Se não achar o que perdi  abandonarei a Esperança aqui mesmo.

O homem continuou com a lista: Medo, Angústia, Vergonha, Carinho, Orgulho, Paixão; tudo ela tinha, alguns mais, outros menos, mas estava tudo ali. Ou quase tudo ali.

– É minha cara…as opções estão acabando. Faça um esforço para lembrar quando que você começou a perder.

– Acho que começou quando tomei para mim uma quantidade muito grande de Egoísmo. Não que um pouco de Egoísmo não seja bom; para mim ele neutraliza os efeitos de uma Obediência Cega; mas meu Egoísmo fez aumentar muito minha Auto Importância e dali para frente os sentimentos alheios foram para o fundo da bolsa.

– Isso acontece com uma frequência muito grande. Você nem faz ideia do tamanho do Egoísmo que as pessoas carregam.

– No começo foi bom. Minha Liberdade estava a toda, assim como minha Segurança e minha Certeza. Mas depois de um tempo, aquilo que eu perdi começou a fazer uma falta imensa. Um pouco antes eu quase tinha perdido a minha Honestidade.

– É complicado perder a Honestidade. Não que você não possa recuperá-la, mas junto com ela os demais perdem a Confiança em você e mesmo que você a recupere, ela já não estará intacta. Vamos pensar um pouco mais: você perdeu essa coisa e essa coisa servia como base para todas as demais que você quase perdeu?

– Isso, uma espécie de cola que unia tudo. Sem essa cola o que eu tenho fica folgado, bagunçado. Estou morrendo de medo de nunca mais recuperar pois então minha vida será incompleta.

– Eu só espero que você não esteja atrás de uma Vida Perfeita. Esse é um erro muito comum. Aparecem  várias pessoas aqui achando que perderam a Vida Perfeita e acreditando que aqui irão encontrá-la. Estão todos procurando algo que nunca perderam, simplesmente porque a Vida Perfeita não existe.

– É, eu sei. Eu entendi isso quando perdi o meu…estou quase lembrando o que perdi.

– Se me permite, eu tenho um palpite. – disse isso e foi até o fundo da sala, se ajoelhou em frente a um criado-mudo coberto de pó, tirou do bolso um molho de chaves e depois de três tentativas achou a chave correta e abriu a única gaveta do móvel. Lá de dentro tirou uma caixa de papelão. A caixa era tão pequena que coube na palma da sua mão. Voltou até o balcão e colocou a caixa na frente da moça. – Tome, tente isso.

– Mas é tão pequena! Tem certeza que é minha? Que aí dentro está o que perdi?

– Certeza quase absoluta. E não se engane pela aparência. O tamanho quem determina é você. Não adianta sair gritando para o mundo que você tem isso. Se você se limitar a guardá-lo numa caixinha no fundo de uma gaveta, ele não vai crescer. É preciso carregá-lo sempre com você. Dormir com ele. Até no banho você pode usá-lo pois ele é a prova d’água. Ele inclusive resiste a Guerras. Até da Morte ele ganha, mas só se for bem usado. Quanto mais você usa, maior ele fica, e ao contrário do que muitos pensam, ele não pesa, ele deixa tudo mais leve. Abra a caixinha, ele é seu, e agora que você o reencontrou cuide bem dele. Não o esqueça nunca mais.

A Moça pegou a caixinha e tirou a tampa. Dentro havia um pedaço de papel dobrado. Cuidadosamente ela pegou o papel, desdobrou e leu o que estava escrito.

A-M-O-R

Desta vez ela não ia perdê-lo

A hora do almoço

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Estranhei ver aquelas três velhinhas entrando calmamente no restaurante. Era a metade de uma quinta-feira e o público que frequenta o local é composto predominantemente de jovens trabalhadores que enchem apressadamente seus pratos, sentam nas mesas com seus colegas e, entre uma garfada e outra, colocam em dia as fofocas do escritório para depois irem embora com a mesma urgência com que chegaram; sempre pensando na pilha de serviço que repousa sobre a mesa de trabalho.

Mas as três velhinhas não tinham urgência; conforme conversavam avançavam salão adentro com a calma de quem não tem mais horários a cumprir. Ao mesmo tempo em que observava as três senhoras me dei conta de que uma música diferente preenchia o local. Olhei para o canto do piano. Ali estava o pianista de sempre que agora fazia par com uma outra velhinha. Ela, distintamente vestida, olhava para uma partitura aberta à sua frente e segurando o microfone dava vida à canções tão antigas quanto ela.

Fiz meu prato e procurei um lugar para sentar. Na mesa em frente encontrei novamente as três velhinhas e junto delas mais duas senhoras e um senhor, todos da mesma faixa etária. Fiquei um tempo olhando aquele grupo e estava claro que se tratava de algum tipo de reencontro entre amigos de longa data. Tentei adivinhar desde quando eles se conheciam: faculdade, colégio? Ou teriam eles dividido as mesmas brincadeiras de infância num tempo em que liberdade era algo bem mais palpável? Anos e anos de amizade, quarenta, talvez cinquenta anos depois e ali estavam eles, cúmplices como só os bons amigo podem ser.

Olhei novamente para o único homem do grupo. Um pouco alheio ao bate papo feminino (e assim todos são) ele segurava um chapéu mostrando que os anos conseguiram conservar-lhe a elegância. Aquele grupo me fez ver o envelhecimento não como uma sentença de morte, mas como algo a ser festejado em um almoço simples ao meio dia de uma quinta-feira. Torço para que quando eu lá chegar (e oxalá eu chegue) também possa  me reunir com as amigas, falar dos filhos e netos e lembrar de histórias antigas tendo ao meu lado um distinto cavalheiro de chapéu na mão.